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CALÍGULA – Cherea, acreditas que dois homens cuja alma e cuja altivez sejam iguais possam, ao menos uma vez na vida, abrir o coração e falar como se estivessem nus um diante do outro, despojados dos preconceitos, dos interesses particulares e das mentiras em que vivem?
CHEREA – Penso que é possível, Caius. Mas julgo-te incapaz de o fazer.
CALÍGULA – Tens razão. Só queria saber se pensavas como eu. Cubramo-nos então de máscaras. Utilizemos as nossas mentiras. Falemos como quem se bate, sempre em guarda. Por que é que não gostas de mim, Cherea?
CHEREA – Porque em ti não há nada de que se possa gostar. Porque estas coisas não se controlam. E também, porque te compreendo o bastante para não te amar, e porque se não pode gostar, noutrem, daquilo que recalcamos em nós.
CALÍGULA – Porquê odiares-me?
CHEREA – Nisso, enganas-te, Caius. Não te odeio. Apenas te julgo prejudicial e cruel, egoísta e vaidoso. Mas não te posso odiar porque sei que és infeliz. E não te posso desprezar porque sei que não é…

Assim que eu me levanto

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Assim que eu me levanto (às quatro e meia, cinco horas), pego minha tigela na mesa da cozinha. Coloquei-a na véspera, para não mexer muito na cozinha, para reduzir o ruído de meus movimentos.
Continuo fazendo assim, dia após dia, menos por hábito do que para recusar a morte de um hábito. Ficar em silêncio não tem mais a menor importância.
Ponho um fundo de café em pó, da marca Z A M A filtro, que compro em grandes vidros de 200 gramas no supermercado FRANPRIX , em frente ao metrô Saint-Paul. Pelo mesmo peso, ele custa quase um terço a menos do que as marcas mais conhecidas, Nescafé, ou Maxwell. O próprio gosto é claramente um terço pior do que o do nescafé mais grosseiro não liofilizado, que já não é lá essas coisas.
Encho minha tigela na torneira de água quente da pia.
Levo lentamente a tigela para a mesa, segurando-a entre minhas mãos que tremem o menos possível, e sento-me na cadeira da cozinha, de costas para a janela, em frente à geladeira e à porta, em frente ao sofá…
O sol se põe sob a porta.
Com toda a evidência algo se acaba mas como saber o quê? se fosse o dia seria simples, mas de uma simplicidade exterior, só implicado gestos : a lâmpada, o fechar das portas, a cama.
Não pode ser isso.
Procuro um índice no sol, na poça de sol posto diante da porta, que já se agita, se retira.
Morrer? não creio. morrer além disso não seria um acabamento. pelo menos para mim.
Algo que está no fim, bem próximo, ao sol posto sob a porta, não conseguiria saber o quê.
Não tentarei sabê-lo. o sol apagado, a noite prevenida de seu fim, eu me levantarei, fecharei as portas, as lâmpadas, a cama.
Houve um tempo em que eu não teria deixado perder-se o sentido de nenhum fim interior. eu teria ficado na noite, nas mãos na noite, as palavras.
Agora, está vindo um fim, renuncio.


jacques roubaud. algo : preto.
Deve-se evitar a tentação de, nos raros momentos de graça e completude interna, considerar isso uma consequência de uma conquista de nossa personalidade sobre o mundo. Tolice e falta de humildade. O mundo não se conquista. Aquela sensação tem mais a ver com compor a paisagem, ou como uma célula que de repente tomasse consciência e observasse o organismo vivo que integra.
Vícios a evitar obstinadamente: grandiloquência e excesso de personalidade.
Horas mortas:
sentenciar o tempo.
Sons distantes agora aqui; murmúrios constantes; a luz.
Vertigem de consciência: estou;
sou.
Estive em outro aqui estive.
Disposição acidental.
O ruído dos homens como silêncio de pedras.
Estar entre homens como estar entre mortos.
Como regressar?
Horas impolutas
Como puras e sem manchas
São as águas 
Horas impolutas
Como duras e sem tramas
São as pedras
Horas poluídas...
Corroidas, carcomidas
Pelas falas
Horas poluídas
Sem o viço, sem o brilho
De outras eras
Horas corrompidas
Pelas línguas, pelas garras
Da humana fera
<< Escrever como questão do escrever, questão que porta a escritura que porta a questão, não te permite mais a relação com o ser – entendido primeiro como tradição, ordem, certeza, verdade, toda forma de enraizamento – que tu recebeste um dia do passado do mundo, domínio que tu eras chamado a gerir a fim de com ele fortalecer teu << Mim >>, mesmo que este estivesse como que fissurado, desde o dia em que o céu se abriu sobre seu vazio.>>
Maurice Blanchot (O passo além) em O LIVRO DAS MARGENS, de Edmond Jabès.
- O que é falar, então, nessas aleias trapaceadas; face a esses lagos jogadores? O que é falar, de verdade, nesses âmagos lamacentos; nesse inferno do verbo e dos precipícios?

O silêncio é sangue seco da chaga.

Edmond Jabes. O LIVRO DAS MARGENS.
"Tudo se come, tudo se comunica, tudo, no coração, é ceia."
Que coincidência esses versos fundos bem hoje em que eu ruminava isto:
Eu não sei se isto me torna mais forte ou mais franco. Também não é desejo de tomar os mesmos bondes. Os bondes passam... Mas, de quando em quando, penso emocionalmente nas mulheres com as quais tive histórias mais ou menos longas; às vezes, brevíssimas. Não há dúvida de que o bom e o ruim se manifestaram na mesma medida.
No entanto, coisa estranha, lembrar-me dos fatos ruins não faz destilar nenhum amargor. Como se tal espécie de memória tivesse se objetivado e se tornando inofensiva; olho para elas e são como pontes ou carros. Mas quando me tomam as boas recordações, os pequenos detalhes de distinção, os lapsos de brilho e de fulgor, sinto-me imerso em um formigamento bom... E tento sumarizar esse passado positivo, catalogá-lo. Mas é impossível. Tudo se mistura e me vejo mergulhado e confuso no acúmulo de mim mesmo...
PEDRAS, de Roger Caillois (em O LIVRO DAS MARGENS, de Edmond Jabes)
<< Falo das pedras mais idosas que a vida e que permanecem depois dela sobre os planetas resfriados, quando ela tivera a fortuna de neles eclodir. Falo das pedras que nem mesmo têm que esperar a morte e que não têm nada a fazer senão deixar deslizar sobre sua superfície a areia, a enxurrada ou a ressaca, a tempestade, o tempo. << O homem lhes inveja a duração, a dureza, a intransigência e o fulgor, por serem lisas e impenetráveis, e inteiras mesmo partidas. Elas são o fogo e a água na mesma transparência imortal, visitada, por vezes, pela íris e, por vezes, por um vapor. Elas lhes trazem, elas que cabem em sua palma, a pureza, o frio e a distância dos astros, várias serenidades.>>