3x4

Ele não contava com isso. Uma mísera foto três por quatro destruir a resolução de toda uma vida. Uma resolução que parecia tão exata.
Ele tomba a cabeça. A cama até que é confortável. Há um botão que lhe permite subir e baixar o encosto. Agora, por exemplo, o encosto está no máximo. Assim, ele consegue ver algo da rua e parte de uma praça. Entre os pombos, avista uma criança seguindo o rastro desgovernado de uma bexiga.
Nenhuma resolução é exata.
Ele escondeu a foto na primeira gaveta de uma espécie de criado-mudo que fica ao lado de sua cama. Mas não adianta. O estrago já está feito. Uma prima que não via há mais de vinte anos resolveu visitá-lo e trouxe a foto. Disse que havia encontrado nas coisas do pai, já morto. Evidentemente, ela imaginou que ele gostaria de receber a foto. Claro que sim. Quem é que não gostaria? Ele agradeceu. A vida sempre tripudiando de todas as nossas resoluções exatas. Que ideia essa de vir vê-lo? A própria garota notou o equívoco da ideia ao perceber que não tinham nada para dizer um ao outro.
Bem, vou indo nessa.
Sim, obrigado pela visita. Obrigado.
Muitos anos antes, muitos mesmo, quando doenças eram infortúnios apenas dos outros e uma chance de demonstrar suas virtudes de consternado, estava na casa da avó quando ela resolveu esparramar uma centena de fotos em cima da mesa. Começou a olhar uma por uma, pegando-as demoradamente, relembrando, suspirando, até que lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. Ele não sabia como explicar o nó no estômago que sentiu nesse momento, mas, de algum modo, teve certeza de que aquele hábito tão cultivado e tão incentivado, tinha alguma falha grave, algo de equivocado. Não sentiu por ela a mesma pena que ela própria sentia de si mesma. Esse é o ponto. Ele sentia vontade de dizer a ela para jogar tudo aquilo fora, picotar aquelas doces amarras. Que não existia tal coisa chamada passado.
Mas é claro que ele não podia dizer nada disso.
Para ele, aquelas fotos funcionavam como bombas-relógio cuidadosamente instaladas ao longo do tempo e que, na verdade, mereciam indiferença e não adoração. Estar vivo, apenas estar vivo, deveria ser sempre o bastante.
Então ele resolveu abdicar de fotos, aboli-las de sua vida. Não tiraria nunca mais uma sequer.
Não vou pregar uma peça em mim mesmo. Não vou meter as minhas mãos nesse monte de gordura e piche.
Sempre que possível, esgueirava-se. Pressentia quando o momento se aproximava e escapulia para o banheiro, para o jardim. Claro que uma vez ou outra, alguma alma agitada pelo álcool e pela emoção saia recolhendo todos pelo braço, quase exigindo a foto e os sorrisos. Daí não havia jeito, tinha de dizer que não tiraria foto nenhuma. Claro que não parava para explicar seu verdadeiro motivo, dizia que era coisa sua, por favor, não insista.
Tudo bem, tudo bem.
E assim seguiu sua vida. Como a maioria, matou tempo, não fez nada de extraordinário. Encontrou uma mulher que, no calor da paixão, topou casar sem festa, sem foto. Mas claro que se separaram depois e ela não cansava de repetir que, por causa daquele filho da puta, tinha abrido mão de seu maior sonho: casar na igreja, véu, grinalda e fotos, muitas fotos. Sonhos, fotos, sonhos, fotos.
Ele seguiu. Cada vez mais rígido e firme. Nutrindo-se da convicção de estar pagando o preço certo, o preço que se paga por ser quem se é. Quando a doença chegou com sua temporada no hospital, não achou tão mal gozar, ainda no mundo, de uma espécie de cessar-fogo. Corredores brancos, roupas de cama brancas. Corredores limpos e silenciosos. Sentia-se quase como uma flor em um jardim diferente. Estava satisfeito. Vivia sem sombras, sem lembranças. Tinha convicção de que em seu último suspiro estaria inteiro, estaria cheio. Seu último olhar seria pleno da última coisa que visse. O teto branco, a enfermeira cansada, o vendedor de algodão doces.
Valeu a pena, pensava orgulhoso. Valeu a pena.
Mas não contava com aquele visita, com aquela mísera foto três por quatro que era todas as fotos que não tirou ao longo da vida. Vendo a si mesmo com nove ou dez anos, lembrou de toda a sua infância, de toda sua juventude. Depois a faculdade, depois o trabalho. As mulheres, as mudanças. Lembrou-se especialmente de todas as ocasiões em que se negou a posar para fotos.
É que tinha uma resolução exata, uma resolução firme.
Mas as nossas grandes resoluções são frágeis e o passado um troço bem insistente. A criança tinha finalmente alcançado a bexiga e andava agora pela mão de sua mãe. Talvez hoje a enfermeira trouxesse a geleia de framboesa. Vamos ver.

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