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Mostrando postagens de Fevereiro, 2015

3x4

Ele não contava com isso. Uma mísera foto três por quatro destruir a resolução de toda uma vida. Uma resolução que parecia tão exata. Ele tomba a cabeça. A cama até que é confortável. Há um botão que lhe permite subir e baixar o encosto. Agora, por exemplo, o encosto está no máximo. Assim, ele consegue ver algo da rua e parte de uma praça. Entre os pombos, avista uma criança seguindo o rastro desgovernado de uma bexiga. Nenhuma resolução é exata. Ele escondeu a foto na primeira gaveta de uma espécie de criado-mudo que fica ao lado de sua cama. Mas não adianta. O estrago já está feito. Uma prima que não via há mais de vinte anos resolveu visitá-lo e trouxe a foto. Disse que havia encontrado nas coisas do pai, já morto. Evidentemente, ela imaginou que ele gostaria de receber a foto. Claro que sim. Quem é que não gostaria? Ele agradeceu. A vida sempre tripudiando de todas as nossas resoluções exatas. Que ideia essa de vir vê-lo? A própria garota notou o equívoco da ideia ao perceber que nã…

poema 266

UMA FOLHA, DESARVORADA,
para Bertold Brecht:
Que tempos são estes,
em que uma conversa
é quase um crime,
por incluir
o já explícito?