Postagens

Mostrando postagens de 2015
<< Há um sentido da palavra que conduz a um outro sentido, o qual conduz a um terceiro que nos faz entrever que estamos ainda na soleira da palavra. << Esgotar todos os sentidos da palavra em um só, tal é a tarefa do escritor >>, dissera ele. No Tudo, há a desagregação do Tudo assim como, no ser, há o fatal esfacelamento do ser. Qual porvir para isso? Sim, o que, no fim das contas, se perpetua?
Edmond Jabes, “O livro das margens”, Lumme Editor, 2014.
--> --> Entre escarpas, o homem percorre caminhos que ele reputa difíceis. Sucedem-se pedras e a água avança límpida. Erguem-se enormes paredes de pedra, desafiadoras. O homem reputa incrível que ali, entre as pedras, também cresçam árvores que se equilibram e servem de abrigo a pássaros - na boca do abismo, pende um ninho. Um bando de pássaros risca em balé o vácuo do cânion. O homem se desequilibra, tomando pela vertigem e a vergonha. Com seu olhar, ele quer dominar a paisagem. Com seus adjetivos, ele não compreende nada.
Digo que o mais profundo serviço que poemas e quaisquer outros escritos podem fazer pelo leitor não é meramente satisfazer o intelecto, ou supri-lo com algo polido e interessante, nem mesmo representar grandes paixões ou pessoas ou eventos, mas enchê-lo de limpa e vigorosa masculinidade, religiosidade, e dar-lhe um bom coração como hábito e possessão radicais.
O tempo das não-perguntas se cristaliza como idílio perdido.
Agora, tudo é dúvida e suspeita.
Ouço no rádio as notícias de minha terra natal.
Agora, sempre algo que não se fecha.
Esfera incompleta.

A luz
Quando resplandece
Óbvia mas
Infinitas
Variações
Matizes que

poema 270

A memória da palavra posta à prova pelo tempo Ocas são as palavras prediletas Vazios sãos os mares dos dias A vertigem de uma tarde de sol - eterna A vertigem de folhas verdes - eterna O repouso das palavras justas
e simples
<< Fazer coincidir, com o mundo nu e gritante do pássaro que caiu do ninho, o mundo mágico das aventuras da linguagem, tal era expressamente minha visão final à época distanciada já em que, sobre a mesma ficha, eu anotava, primeiro, minha crença na necessidade de fazer coincidir com alguma coisa de uma gravidade vital o jogo frívolo que se opera entre as palavras; depois, exprimia minha vontade de tirar dessa atitude a respeito das palavras um meio de vida mais intenso e uma regra de vida, reflexão com a qual explicitamente um realismo se afirma, mas que não menos explicitamente subordina a moral à poesia já que é em uma certa atitude a respeito das palavras que intendo encontrar a indicação de uma linha de conduta ao mesmo tempo que a fonte de um enriquecimento da vida...>>

Eugenesia

Acontece que os cronópios não querem ter filhos, porque a primeira coisa que um cronópio recém-nascido faz é insultar estupidamente seu pai, em quem percebe sombriamente a acumulação de desventuras que um dia serão suas. Em vista de tais razões, os cronópios acodem aos famas para que estes lhes fecundem as mulheres, coisa que os famas estão sempre dispostos a fazer por se tratar de seres libidinosos. Além do mais eles acham que desta forma irão minando a superioridade moral dos cronópios, mas se enganam redondamente, pois os cronópios educam os filhos à sua maneira, e em poucas semanas lhes tiram qualquer semelhança com os famas.

poema 269