Era bem este o acerto entre Anselmo e Lurdinha: quando a nata da cidade se reunia em jantares ou encontros de quaisquer espécie, ele deveria humilhar os maridos de suas amigas, deveria vencer todas as conversas. As mulheres, evidentemente atentas ao desenrolar da roda dos homens, perceberiam que Anselmo dominava as atenções, conduzia os diálogos e guiava com suas opiniões. Em troca, Anselmo poderia fazer dela gato e sapato em casa. E ele fazia. Ordenava e batia. Lurdinha, calada como um soldado raso, sentia um prazer estonteante com essa obediência consentida, com esse pacto que funcionava e a tornava a mulher mais invejada entre todas as amigas.
Nos encontros e reuniões que frequentavam, Anselmo percorria seus rivais como um cavalo em disparada pelo deserto. Fazia de todos areia muda. Alimentava-se do próprio orgulho, seu peito inflava mais e mais, e de repente, contrariados ou não, todos o ouviam, formando um círculo que claramente culminava nele.
Lurdinha, mão no queixo, cotovelo no peito, esboçava um sorriso que passava a mão na cabeça das amigas dizendo, ao mesmo tempo, que aquilo era apenas uma conversa e que aquilo não era apenas uma conversa, que era a prova de que ela se saíra a vencedora, escolhida pelo homem superior e, portanto, ela própria de uma estirpe superior.
Anselmo, mesmo que não tivesse a mulher no raio de visão, pressentia que ela o observava, afinal, esse era o trato. E então se sentia ainda mais estimulado a ter e destilar a opinião que fosse. A desconstruir qualquer argumento, por mais acertado que fosse, usando todo e qualquer artifício de retórica.
Satisfeitos, chegavam em casa e iniciavam seu ritual de silêncio, de ordens mudas emanadas dos olhos de Anselmo.
Silêncio apenas suspenso e confirmado pelas bofetadas surdas que limpavam a maquiagem do rosto de Lurdinha.

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