Olhos azuis


Meu amigo Felipe sempre me contava de seus primos interioranos. Como se cumprimentavam com uma espécie de grunhido e meneios de cabeça. Gostávamos de histórias sobre homens rudes. Um deles era representante comercial e gostava de levar seus clientes a puteiros. Toda a cobiça desses filhos da puta sempre terminava no meio de um par de pernas. Ele dizia, “Primo, quando chegou a hora de pagar, eu tava sem dinheiro. Deixei um cheque. Mas fiquei preocupado, não quis um cheque descontado por uma puta na minha conta. Vai saber se não deixa rastro. Pedi pra ela segurar o cheque até o dia seguinte. Disse que levaria o dinheiro vivo até sua casa. Ela concordou. Mas falou que não esperaria mais do que um dia”.
No dia seguinte, o primo foi até o endereço. A mulher vivia em um pardieiro. Da rua, ouviam-se gritos de criança. Ele percorreu um corredor longo, o portão estava aberto e a mulher o esperava no fundo.
“Primo, quando vi aquele cabelo espetado, ela arrastando o chinelo de dedo... que arrependimento, que arrependimento”. Ele esperou no sofá. Um menino mirrado, com um pano surrado e uma chupeta, ficou encarando, sentando em uma cadeira. “Não olhei pra cara dela, primo, pra não aumentar o arrependimento. Dei o dinheiro e sentei pra esperar”.
Mas quando ela voltou com o cheque, o primo não pôde mais desviar o olhar. Viu uma mulher sem nenhuma alegria no rosto, seca de tudo, um trapo de uma recordação, uma sombra entre luzes vermelhas e amarelas. Então, olhando-a bem nos olhos, ele perguntou: “Ontem seus olhos não eram azuis?”.

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