Metrô

"O cara que fez isso não deve ter pensando que aqui ia passar gente” Foi a frase que ouvi de um dos espremidos como eu no corredor que ligava a linha amarela à verde do metrô. Essa é uma maneira divertida de olhar para a situação. Mas a maioria das pessoas tinha um olhar cansado e emburrado, embora ainda estivesse indo para seus trabalhos.
Caminhávamos extremamente devagar, passos de tartaruga. Um grande e lento fluxo humano se esgueirava por um cumprido corredor. Eu podia ver bundas e peitos e pernas e braços. Podia ver nucas e carecas e cabelos sebosos. Golas puídas, golas desfiadas. Interiores de sacolas, capas de livros. Uma centena de detalhes dos mais diversos à minha disposição. Eu me sentia poderoso e sorridente. Mas de repente eu me lembrei de que eu mesmo teria essa feição inerte, de um simples corpo que anda, para outras pessoas. Uma lâmina de observação ambulante. Desconhecidos que, forçadamente próximos, perceberiam detalhes meus ignorados por mim mesmo. Eles veriam minha nunca de uma maneira que eu nunca verei. Veriam meu cabelo, minha orelha. Detalhes do meu corpo, detalhes do meu movimento no mundo. Formariam de mim uma imagem isenta e talvez mais certa do que a imagem que formo de mim mesmo, mais certa do que a imagem que meus conhecidos formam de mim mesmo. Eu acho que há algo nisso. Uma força praticamente inexplorada. Eu acho.


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