poema 244

Uma hora haverá de passar
eu penso
todos esses tremores
e essa urgência
por carne humana.

Uma hora haverá de passar
eu penso...

Talvez quando ele
não mais subir
eu
expulso do jogo
possa finalmente
contemplar as tardes
com isenção e amor.

Uma hora haverá de passar
eu penso
toda essa expectativa
e essa urgência
pela realização de alguma coisa
como o laço que se dá
no sapato
ou ao redor de um presente.

Mas então me lembro
dos rostos dos velhos
que vejo por aí
cansados
perdidos
parados
murmurando silêncios
e ainda olhando bundas...
E sinto realizar
por dentro
seus mesmos gestos
de tristeza
de dúvida
de não ter dado o laço
na vida.

Não, não irá passar...
E mesmo sem seiva
sentirei calores
como as lembranças de um amputado.

A velhice não é sábia.
A juventude não é sábia.
A maturidade não é sábia.

Se ainda vejo valor
em alguma coisa
é na consciência
que é mais ou menos um cansaço
a poeira que assenta
no fundo da vasilha.
Que é mais ou menos a imparcialidade
em relação a si mesmo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha