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Mostrando postagens de Agosto, 2014

poema 254

Seu primeiro disparo Ressoa doce É sílaba entre pétalas
Seu segundo olhar Parece calculado É lança entre escudos
Seu terceiro passo Tem direção É flecha que acerta
E quando nos encontramos... Já não estamos

poema 253

O pensamento se trai a cada verso Construo cadafalsos Enforco pensamentos
Todo o poema está no primeiro verso Que constrói caminhos E inventa andarilhos
A melhor invenção do homem São as laranjas E os cursos dos rios
As vontades pesam toneladas E não há coleções Que bastem
Vou mumificar formigas E espetar olhos de gatinhos
Vou fabricar amores E sorrir o máximo que puder
Vou propor pactos de força E acreditar apenas nos inimigos
A noite não possui rivais A água não possui rivais O mugido da vaca é imbatível
Edmond Jabès
Desejo de um começo
(trechos)
Pensar a origem não é, antes de tudo, pôr à prova a origem? Desejo de um começo.
...
Na sede, evitar beber uma água poluída. Nós a reconhecemos em sua turva transparência. Ela tem a limpidez da não-pureza.
...
No limiar da morte, não é o porvir da alma que nos preocupa mas o comportamento do corpo.
...
O que escoa conosco, tem, por papel e por fim, escoar. Objetividade da perda. Mas o instante opõe, ao espírito, um formal desmentido.
...
Não extraias somente no amor tua força de amar. Extrai, igualmente, esta, em sua régia força
mesma.
A culpa e o desejo disputam a pérola A virtude a isola de sua concha pretérita Renega seu passado de areia e sal, mortal.
O desejo a profana com tudo o que ela tem de maré Em plena luz, lambe todos os seus poros Liberta e afirma.
O Nada são as escamas do eterno E o Tudo
Os penduricalhos do efêmero

poema 223

Ando só numa multidão de amores” Dylan Thomas
...Quem pode ter a certeza de estar amando?... Albert Camus

Nunca conheci as mulheres que amei - Todas elas tão distantes a um palmo de mim
Nunca amei as mulheres que tive - Todas elas tão distantes mesmo presas a mim
É que toda vida vivi entre sonhos Toda vida vivi

CANÇÃO PARA UMA NOITE DE LUAR

Tu deslocas as ruas. A cidade é um labirinto.
Sempre acabo em tua rua.
Tu mudas de nome.
Os dias são meus degraus.
Tua janela é tão alta.
Perco-te de vista.
À tua porta, um ladrão
ataca a fechadura.
Circundas meus sonhos.
Escapas à terra, Ao inverno, às lágrimas.

poema 251

Quero o convite a delicadezas Não a imposição de mundos particulares, Muros que encobrem Todos os sóis
O engate O enlace Se faz em laço
de luz

Da arte das armadilhas

O seu corpo para o meu: seta, precisamente
Inaudível o mundo mudo aciona o fecho da flor
Há desilusão mas não há fuga
O caçado está preso à presa

Amor 77

poema 244

Uma hora haverá de passar eu penso todos esses tremores e essa urgência por carne humana.
Uma hora haverá de passar eu penso...
Talvez quando ele não mais subir eu expulso do jogo possa finalmente contemplar as tardes com isenção e amor.
Uma hora haverá de passar eu penso toda essa expectativa e essa urgência pela realização de alguma coisa como o laço que se dá no sapato ou ao redor de um presente.
Mas então me lembro dos rostos dos velhos que vejo por aí cansados perdidos parados murmurando silêncios e ainda olhando bundas... E sinto realizar por dentro seus mesmos gestos de tristeza de dúvida de não ter dado o laço na vida.
Não, não irá passar... E mesmo sem seiva sentirei calores como as lembranças de um amputado.
A velhice não é sábia. A juventude não é sábia. A maturidade não é sábia.
Se ainda vejo valor em alguma coisa é na consciência que é mais ou menos um cansaço a poeira que assenta no fundo da vasilha. Que é mais ou menos a imparcialidade
em relação a si mesmo.
Sobre a invenção das coisas...
Começando com Rainer Maria Rilke, Réquiem para um poeta, extraído de Ibáñez Langlois, José Miguel, “Rilke, Pound, Neruda: três mestres da poesia contemporânea”.
Oh velha maldição dos poetas que se queixam quando devem dizer; que sempre opinam sobre seus sentimentos em lugar de formá-los, e supõem que quanto neles seja triste e alegre saberiam e poderiam em poemas chorá-lo ou festejá-lo. Como enfermos convertem em lamento sua linguagem, para dizer onde lhes dói, em vez de se transformarem, duros, em palavras, como o canteiro de uma catedral transforma-se na calma da pedra...
E agora Nelson Cavaquinho:
... Se eu sorrir Meu pranto nunca virá Se eu cantar minha alegria virá Hei de resistir esta paixão Que me domina Chega de chorar ...