O homem, guiado pelo senso da beleza, transforma o acontecimento fortuito (uma música de Beethoven, uma morte numa estação) num motivo que mais tarde vai se inscrever na partitura de sua vida. Voltará a esse motivo, repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o como faz o compositor com o tema de sua sonata. Anna poderia ter posto fim a seus dias de outra maneira. Mas o motivo da estação e da morte, esse motivo inesquecível associado ao nascimento do amor, atraiu-a no momento do desespero por sua beleza sombria. O homem, inconscientemente, compõe sua vida segundo as leis da beleza mesmo nos instantes do mais profundo desespero.
Não se pode, portanto, criticar o romance por seu fascínio pelos encontros misteriosos dos acasos (como o encontro de Vronski, Anna, a plataforma e a morte, ou como o encontro de Beethoven, Tomas, Tereza e o copo de conhaque), mas se pode, com razão, criticar o homem por ser cego a esses acasos, privando assim a vida da sua dimensão de beleza.
 
Milan Kundera, A insustentável leveza do ser

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