prosa poética 8

Seu corpo é areia onde me deito. E meu corpo finalmente ganha forma nesse lívido leito. Nesse instante agudo, torno-me alguma coisa sólida. Por alguns momentos, estanco a perda de qualquer coisa vital, que lá fora, dentro das horas, parece jorrar sem cessar. Sou, agora. Refeito na mesma fôrma, menos rarefeito ainda que, embora, seja questão de tempo, pouco tempo, você que logo irá embora.

Voltado para o avesso da terra, respiro na sua pele um ar antigo, o ar quente e pesado das grandes florestas tropicais, carregados de vida e de morte. Úmidas como a sua boca - fina cobertura de gelo pela qual deslizo com zelo - sua boca, secretando convites, surrando mudas certezas epilépticas. No escuro do escuro, no último círculo da noite, suas pernas juntas são como a cauda de uma sereia. Seu ventre aberto, campos onde cresce o centeio, pradarias pedindo galope. 
Sua pele, brilho fosco do meu piscar de olhos.
Sua respiração... qual melodia o quê - a própria matéria viva, vivamente assustadora.

Você se deixa amar como as flores abrigam abelhas: cegas, silenciosas, colores. Sutilmente tocadas, pousadas. O pender da pétala ao peso de uma pequena abelhinha...
Sua entrega lenta me exige correspondência, o primor de um artesão, a delicadeza de dedos que se espalham por sua pele como gotas de chuva. Meus dedos, então, brincam de perfeições, porque talham suas formas, que formam exatamente o que desejo. 

(As flores não são donas de todo o seu amor. Forçosamente, a vida lhes impôs humildade, desprendimento, calma. O vento ajuda na missão de amor da planta. A abelha facilita esse amor...)

Deito a orelha esquerda na terra e dos combatentes já ouço os passos. O alarido prenuncia o combate. Por que nossa fala não expressa a linguagem desses tambores? Erguido meu estandarte único, preleciono ordens incertas. Porém, um orvalho castanho embaça a visão e o avanço se faz pelo tato nesse prado multiforme, por esses vales que valem por marés.

Nem toda plenitude necessita apoteose. Esse foi o aprendizado de hoje e, graças a ele, nos aproximamos mais de algo incerto, porém vivo e total e honrado.
Suas palavras apreenderam o ritmo do seu corpo. Você reaprendeu sua linguagem prima. E ainda que sejam palavras de despedida as que agora você me flauteia, orgulho-me. Porque nos refizemos juntos. Somos os novos ursos polares destas neves. Porque você não é feita de pressa. Você é a calma das suas formas retilíneas, do seu rosto equino. Você é um rosto devagar que, quando a vejo de lado, avança sutilmente por sua cortina castanha. Talvez você não saiba, mas sei em você o dom de se comunicar com as coisas apenas de estar entre elas. Enquanto você se arrumava para ir embora, parecia apenas mais um dos objetos da casa, que misteriosamente tivesse se levantado. E isso é tanto, essa similaridade com as coisas.

Da altura em que você me deixou, assisti a seus últimos passos em segura elevação. Você, a mulher-corcel, ia embora.

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