ESPERANÇA DO MUNDO

JANEIRO DE 36.

Esse jardim do outro lado da janela, só vejo os muros. E algumas folhagens por onde a luz se espalha. Mais alto, ainda as folhagens. Mais alto, o sol. E de toda essa jubilação do ar que se sente fora, de toda essa alegria espalhada no mundo, eu só percebo as sombras das folhagens que brincam com as cortinas brancas. Cinco raios de sol também despejam pacientemente no cômodo um perfume dourado de capim seco. Uma brisa, e as sombras se animam na cortina. Que uma nuvem cubra e depois descubra o sol, e eis que da sombra surge o amarelo radiante desse vaso de mimosas. É suficiente: esse único raio nascente e eis que eu me inundo de uma alegria confusa e atordoante.
Prisioneiro da caverna, aqui estou sozinho diante da sombra do mundo. Tarde de janeiro. Mas o frio fica no fundo do ar. Por toda parte uma película de sol que se romperia sob o peso das unhas, mas que reveste todas as coisas com um eterno sorriso. Quem sou eu e o que posso fazer – senão entrar na brincadeira das folhagens e da luz. Ser esse raio de sol em que meu cigarro se consome, essa doçura e essa paixão discreta que respira no ar. Se eu tento me atingir, é bem no fundo dessa luz. E se eu tento compreender e saborear esse delicado sabor que o segredo do mundo oferece, é a mim mesmo que encontro no fundo do universo. Eu mesmo, isto é, essa emoção extrema que me desprende do cenário. Daqui a pouco, voltarei às outras coisas e aos homens. Mas deixe-me colher esse minuto na teia do tempo, como outras pessoas deixam uma flor entre as páginas. Elas guardam ali um passeio em que o amor as tocou levemente. E eu também passeio, mas é um deus que me acaricia. A vida é curta e é pecado perder tempo. Eu perco meu tempo durante o dia todo e os outros dizem que sou muito ativo. Hoje é um momento de pausa e meu coração parte ao encontro de si mesmo.
Se uma angústia ainda me sufoca, é de sentir esse instante impalpável escorregar entre meus dedos como as pérolas do mercúrio. Deixem então aqueles que querem se separar do mundo. Eu não me lamento mais, pois me vejo nascer. Sou feliz nesse mundo porque meu reino é desse mundo. Nuvem que passa e instante que desbota. Morte de mim para mim mesmo. O livro se abre em uma página predileta. Como ela é sem graça hoje na presença do livro do mundo. É verdade que eu sofri, não é verdade que eu sofro; e que esse sofrimento me exalta porque é esse sol e essas sombras, esse calor e esse frio que se sente bem longe, no fundo do ar. Vou me perguntar se alguma coisa morre e se os homens sofrem, já que tudo está escrito nessa janela na qual o céu derrama sua plenitude. Posso dizer, e diria agora, que o que conta é ser humano, simples. Não, o que conta é ser verdadeiro e então tudo se inclui nisso, a humanidade e a simplicidade. E quando seria eu mais verdadeiro e transparente do que no momento em que eu sou o mundo?
Instante de adorável silêncio. Os homens se calaram. Mas o canto do mundo se eleva e eu, acorrentado no fundo da caverna, estou satisfeito antes mesmo de ter desejado. A eternidade está aí e eu esperava por ela. Agora posso falar. Não sei o que eu mais poderia desejar além dessa contínua presença de mim diante de mim mesmo. Não é ser feliz que eu desejo agora, mas somente ser consciente. Parece que se está ausente do mundo, mas basta que uma oliveira se desenhe na poeira dourada, bastam algumas praias deslumbrantes sob o sol da manhã, para que se sinta essa resistência desfazer-se. Assim também eu. Tomo consciência das possibilidades pelas quais sou responsável. Cada minuto da vida carrega com ele seu valor de milagre e sua aparência de eterna juventude.


Cadernos (1935-1937), ESPERANÇA DO MUNDO, Albert Camus, Editora Hedra, 2014

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha