CADERNOS DE ALBERT CAMUS

A Editora Hedra publicou três volumes dos Cadernos do Albert Camus. Parabéns. 
O Camus é um grande homem e conviver com seu pensamento enriquece. Deve ser difundido. Mas faço uma crítica à Hedra: era mesmo necessária a divisão em três volumes? 
Pela quantidade de páginas de cada um, parece-me que não. 
Claro que posso estar errado, pois desconheço o mercado de livros, mas fiquei com a impressão de que tal divisão teve a finalidade de aumentar ganhos. Desembolsei quase cem reais. 
Restringe-se, com isso, a difusão. E o Camus é um homem que precisa ser lido. 

Alguns trechos: 


“Hoje, me sinto livre em relação ao meu passado e ao que perdi. Só quero esse aperto e esse espaço fechado – esse fervor lúcido e paciente. E como o pão quente que se aperta e que se reduz a quase nada, eu quero apenas ter minha vida nas mãos, como aqueles homens que souberam encerrar suas vidas entre flores e colunas. E ainda essas longas noites de trem nas quais se pode falar consigo mesmo e se preparar para viver, de si para si, e a paciência admirável de retomar ideias, apanhá-las em sua fuga, e ainda avançar. Lamber a vida como um torrão doce, moldá-la, afiá-la, amá-la enfim, como se busca a palavra, a imagem, a frase definitiva, aquilo ou aquela que conclui, que detém, com o que se partirá e que fará dali em diante todo o colorido do nosso olhar. Eu bem que poderia parar aí, encontrar finalmente o termo de um ano de vida desenfreada e louca. Essa presença de mim diante de mim mesmo – meu esforço é de levá-la até o limite, mantê-la diante de todas as faces de minha vida, mesmo ao preço da solidão, que eu sei agora o quanto é difícil suportar. Não ceder: tudo está aí. Não consentir, não trair. Toda minha violência me ajuda nisso e, no ponto em que ela me leva, meu amor me reencontra e, com ele, a furiosa paixão de viver que dá sentido aos meus dias.
Sempre que cedemos (que eu cedo) às próprias vaidades, sempre que pensamos e vivemos para “parecer”, nos traímos. Todas as vezes, sempre foi a desgraça de querer parecer que me diminuiu diante do verdadeiro. Não precisamos nos entregar aos outros, mas somente àqueles que amamos. Pois nesse caso não se trata mais de se entregar para parecer, mas somente para oferecer (...)”


Cadernos (1935-1937), ESPERANÇA DO MUNDO, Albert Camus, Editora Hedra, 2014

“Eu quero ser aquele ator perfeito. Zombo de minha personalidade e não me digno a cultivá-la. Quero ser o que minha vida faz de mim e não fazer de minha vida uma experiência. Sou eu a experiência e é a vida que me molda e me dirige. Se eu tivesse força e paciência o bastante, eu bem sei a que grau de perfeita impessoalidade chegaria, até que impulso repentino do nada ativo minhas forças poderiam chegar. O que sempre me impediu foi minha vaidade pessoal. Hoje entendo que agir, amar e sofrer, isso é de fato viver, mas viver na medida em que se é transparente e se aceita seu destino como reflexo único de um arco-íris de alegrias e paixões (...)”


Cadernos (1937-1939), A DESMEDIDA NA MEDIDA, Albert Camus, Editora Hedra, 2014



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