prosa poética 4


Este frio tem cheiro de coisa velha. Me faz lembrar de um passado austero, que passei na casa de meus tios. Casa limpa, com tudo em seu devido lugar, com os gestos carregados de tempo, de tanto. O frio é limpo, é branco, tem bom hálito. Rouba o calor do café passado, feito pra inaugurar o dia. Naquela casa, sempre havia uma camada de recém limpeza nas coisas. A tia andava curvada com o olhar na altura das coisas, meio enviesado assim, com o paninho em riste. Era triste. Ao menos para mim, que sou dado a essas coisas de sentimentos. O tio não parecia triste, sempre enviesado assim, sempre na sala, vendo o noticiário. Não conversavam muito. Ele já sabia que era bom evitar fazer sujeira. Mas a sujeira não era o ponto. Ela gostava de lustrar o limpo. Era sua forma de perfeição. Este frio também me faz lembrar de acordar cedo, de quando acordávamos cedo naquela casa, porque o frio marca as coisas, e como a madrugada também, a recordação se faz duplamente cravada então. O frio é limpo, é neutro e, por contraste, fixa o gosto das coisas ao redor. Lembro até do calor da pesada coberta que era minha. Laranja com riscas pretas na largura. Era laranja e preta, pra facilitar. Mas não trouxe comigo. Faz um frio danado aqui e as coisas se recolhem. As coisas se recolhem no frio, como braços envolvem um corpo. O frio daquelas paredes caiadas, daqueles pequenos trechos de paredes envelhecidas. Para a tia, parecia não haver confronto entre o rigor da limpeza e algumas partes invariavelmente decaídas da casa. Era a elegância para receber a morte, que agora sei ser característica bem andaluza. A elegância daquilo que ainda se mantém de pé. Aquela casa, os dois, tudo ali era velho e gélido e austero. Sinto saudades daquele ambiente preparado para o silêncio e para o branco, agora que aqui o frio se espalha desobediente e rasteiro levantando folha de jornal. Mesmo no frio, aqui o calor da sujeira se ergue. Mesmo com a geometria da bruma, uma desordem insolente e indolente subjaz permanente.

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