Prosa poética 3


Há uma pequena memória que alude a algo que não consigo traduzir completamente, mas que se faz presente no fundo de meu ser como um pilar. Quando fui à Espanha, por um mês estive com meus parentes andaluzes. Um dia, levado por um tio, fui visitar a irmã de minha avó, uma velha teimosa que resistia, mesmo após a morte de seu marido, em sua pequena casa no campo. Ao me ver, demonstrou alegria sem arroubos de surpresa e se pôs a mostrar os dois ou três cômodos de sua casa, já não me lembro ao certo quantos. Enquanto a seguíamos, ela nos guiava como uma pequena tartaruga sem voltar a cabeça para trás, deparei-me com uma foto minha e de meus irmãos pendurada em uma parede. Senti um aperto imediato em meu peito! Não me lembro se mencionei ter visto a foto. Talvez sim. Não me lembro se ela respondeu algo. Provavelmente não. Mas eu estava ali, pendurado em uma parede áspera e velha de uma pequena casa cravada no sul da Espanha! Que sensação de aniquilamento ante uma confirmação tão inusitada de minha existência e que afeição profunda senti por aquela mulher. Na verdade, até hoje não sei exatamente o que senti, talvez a confirmação de que existimos pelas mãos dos outros, talvez a infinidade descontínua de existências que deriva de toda e qualquer coisa, a multiplicidade infinita. Acho que o aperto que tive no peito também foi por me sentir parte daquela solidão, pois, metido em uma pequena moldura de vidro, eu dividia com ela suas noites.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha