Postagens

Mostrando postagens de Março, 2014

Aprendendo a cantar

PEITO desenhado de costelas, o respirar que as enche de vida. Músculos como frutos maduros – nem mais, nem menos. Não há exageros, mas a plenitude daquilo que atinge a borda do próprio limite. Pernas que se movimentam desde as coxas. Sentir que se tem duas pernas, sentir a existência da virilha! Braços totais, esculpidos em madeira de lei divina. O primoroso trabalho das articulações; cuidar para que os movimentos sejam como os passos do bailarino.
Tendões orgulhosos. Pés robustos. Dedos fortes galhos.
Itinerários de veias, veias saltadas; o verde que sabemos vermelho. Pele que se abre à estação do sol: expressão do corpo que participa das mudanças que ocorrem ao redor.
Aqui e ali, ossos ligeiramente sobressalentes, aflorados, para que a gordura excessiva não embote o espírito.
Sedutora reentrância entre o ombro e o pescoço. Como pode uma nuca suscitar a misteriosa ligação que faz o olhar seguir no encalço da mulher?
Andar altivo, porte ereto. Rosto retilíneo, sóbrio, compreensivo, afetuoso, gra…

O ANJO DAS PERNAS TORTAS

VOCAÇÃO DO POETA

Não nasci no começo deste século: Nasci no plano do eterno, Nasci de mil vidas superpostas, Nasci de mil ternuras desdobradas. Vim para conhecer o mal e o bem E para separar o mal do bem. Vim para amar e ser desamado. Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos. Não vim para construir minha própria riqueza Nem para destruir a riqueza dos outros. Vim para reprimir o choro formidável Que as gerações anteriores me transmitiram. Vim para experimentar dúvidas e contradições.
Vim para sofrer as influências do tempo E para afirmar o princípio eterno de onde vim. Vim para distribuir inspiração às musas. Vim para anunciar que a voz dos homens Abafará a voz da sirene e da máquina, E que a palavra essencial de Jesus Cristo Dominará as palavras do patrão e do operário. Vim para conhecer Deus meu criador, pouco a pouco, Pois se O visse de repente, sem preparo, morreria.

poema 227

CANTO A GARCÍA LORCA

Não basta o sopro do vento Nas oliveiras desertas, O lamento de água oculta Nos pátios da Andaluzia.
Trago-te o canto poroso, O lamento consciente Da palavra à outra palavra Que fundaste com rigor.
O lamento substantivo Sem ponto de exclamação: Diverso do rito antigo, Une aridez ao fervor, Recordando que soubeste Defrontar a morte seca Vinda no gume certeiro Da espada silenciosa Fazendo irromper o jacto De vermelho: cor de mito Criado com a força humana Em que sonho e realidade Ajustam seu contraponto.
***
Consolo-me da tua morte. Que ela nos elucidou Tua linguagem corporal Onde EL DUENDE é alimentado Pelo sal da inteligência, Onde Espanha é calculada Em número, peso e medida.

Motivo