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Mostrando postagens de 2014

Edmond Jabès + Belchior >>> Aprendam o delírio com coisas reais

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Ele - Há dias mais próximos da morte que da vida, em que o mundo se transforma para nós em fumaça. Esta noite. Esta manhã. O mundo arde, em mim, e eu vou caminhando.
Sei que não tenho a formação necessária, mas me atrevi a traduzir um pequeno poema doRobert Creeley. Retomei a leitura desse poeta americano nos últimos dias, por conta das conversas com oMario Bakuna. Há no Brasil apenas um pequeno livro que reúne um punhado de poemas dele traduzidos por Régis Bonvicino. A minha versão é a última.

NYC
Streets as ever blocky, grey – square sense of rectangular
enclosures, emphasized by the coldness of the time of year,
and the rain. In moving in the cab – continual sense of small
(as size, i.e., all “cars”, etc.) persistent difficulties.
Robert Creeley

NYC

Ruas como sempre blocos, cinza – quadrado senso de retangular
fechado, enfatizado pelo frio do tempo do ano,
e a chuva. Em movimento no táxi, contínuo senso de pequeno
(como medida, i.é, tudo “carros” etc.) dificuldades persistentes.

Tradução de Régis Bonvicino


NYC
Se sentir ou não se sentir culpado. Acho que tudo depende disso. A vida é uma luta de todos contra todos. É sabido. Mas como essa luta acontece numa sociedade mais ou menos civilizada? As pessoas não podem se atirar umas sobre as outras sempre que se encontram. Em vez disso, tentam jogar no outro o constrangimento da culpabilidade. Ganhará aquele que conseguir tornar o outro culpado. Perderá aquele que reconhecer sua culpa. Você vai pela rua, mergulhado em pensamentos. Em sua direção vem uma moça, como se estivesse sozinha no mundo, sem olhar nem para a esquerda nem para a direita, indo direito em frente. Vocês se esbarram. Eis o momento da verdade. Quem vai insultar o outro, e quem vai se desculpar? É uma situação-modelo: na realidade, cada um dos dois é ao mesmo tempo o que sofreu o esbarrão e o que esbarrou. E, no entanto, há os que se consideram, imediatamente, espontaneamente, os que esbarram, portanto culpados. E há os outros, que se veem sempre, imediatamente, espontaneamente, …
621. O amor como artifício. – Quem realmente quiser conhecer algo novo (seja uma pessoa, um evento ou um livro), fará bem em receber esta novidade com todo o amor possível, e rapidamente desviar os olhos e mesmo esquecer tudo o que nela pareça hostil, desagradável, falso: de modo a dar ao autor de um livro, por exemplo, uma boa vantagem inicial, e, como se estivesse numa corrida, desejar ardentemente que ele atinja sua meta. Pois assim penetramos até o coração, até o centro motor da coisa nova: o que significa justamente conhecê-la. Se alcançamos este ponto, a razão pode fazer suas restrições; a superestimação, a desativação temporária do pêndulo crítico, foi somente um artifício para fazer aparecer a alma de uma coisa.