“A PALO SECO”


I.I. Se diz a palo seco
      o cante sem guitarra;
      o cante sem; o cante;
      o cante sem mais nada;

      se diz a palo seco
      a esse cante despido:
      ao cante que se canta
      sob o silêncio a pino.

I.2. O cante a palo seco
       é o cante mais só:
       é cantar num deserto
       devassado de sol;

       é o mesmo que cantar
       num deserto sem sombra
       em que a voz só dispõe
       do que ela mesma ponha.

I.3. O cante a palo seco
       é um cante desarmado:
       só a lâmina da voz
       sem a arma do braço;

       que o cante a palo seco
       sem tempero ou ajuda
       tem de abrir o silêncio
       com sua chama nua.

I.4. O cante a palo seco
       não é um cante a esmo:
       exige ser cantado
       com todo o ser aberto;

       é um cante que exige
       o ser-se ao meio-dia,
       que é quando a sombra foge
       e não medra a magia.

2.I. O silêncio é um metal
       de epiderme gelada,
       sempre incapaz das ondas
       imediatas da água;

       a pele do silêncio
       pouca coisa arrepia:
       o cante a palo seco
       de diamante precisa.

2.2. Ou o silêncio é pesado,
        é um líquido denso,
        que jamais colabora
        nem ajuda com ecos;

       mais bem, esmaga o cante
       e afoga-o, se indefeso:
       a palo seco é um cante
       submarino ao silêncio.

2.3. Ou o silêncio é levíssimo,
        é líquido sutil
        que se coa nas frestas
        que no cante sentiu;

        o silêncio paciente
        vagaroso se infiltra,
        apodrecendo o cante
        de dentro, pela espinha.

2.4. Ou o silêncio é uma tela
        que difícil se rasga
        e que quando se rasga
        não demora rasgada;

        quando a voz cessa, a tela
        se apressa em se emendar:
        tela que fosse de água,
        ou como tela de ar.

3.I. A palo seco é o cante
      de todos mais lacônico,
      mesmo quando pareça
      estirar-se um quilômetro:

       enfrentar o silêncio
       assim despido e pouco
       tem de forçosamente
       deixar mais curto o fôlego.

3.2. A palo seco é o cante
        de grito mais extremo:
        tem de subir mais alto
        que onde sobe o silêncio;

        é cantar contra a queda,
        é um cante para cima,
        em que se há de subir
        cortando, e contra a fibra.

3.3. A palo seco é o cante
        de caminhar mais lento:
        por ser a contrapelo,
        por ser a contravento;

        é cante que caminha
        com passo paciente:
        o vento do silêncio
        tem a fibra de dente.

3.4. A palo seco é o cante
        que mostra mais soberba;
        e que não se oferece:
        que se toma ou se deixa;

        cante que não se enfeita,
        que tanto se lhe dá;
        é cante que não canta,
        cante que aí está.

4.I. A palo seco canta
       o pássaro sem bosque,
       por exemplo: pousado
       sobre um fio de cobre;

       a palo seco canta
       ainda melhor esse fio
       quando sem qualquer pássaro
       dá o seu assovio.

4.2. A palo seco cantam
       a bigorna e o martelo,
       o ferro sobre a pedra,
       o ferro contra o ferro;

       a palo seco canta
       aquele outro ferreiro:
       o pássaro araponga
       que inventa o próprio ferro.

4.3. A palo seco existem
        situações e objetos:
        Graciliano Ramos,
        desenho de arquiteto,

        as paredes caiadas,
        a elegância dos pregos,
        a cidade de Córdoba,
        o arame dos insetos.

4.4. Eis uns poucos exemplos
        de ser a palo seco,
        dos quais se retirar
        higiene ou conselho:

        não o de aceitar o seco
        por resignadamente,
        mas de empregar o seco
        porque é mais contundente.



João Cabral de Melo Neto


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha