Sugestão de leitura: aperte o play na música do Baden Powell e comece a ler o poema em voz alta.

Mulher

que não queira nada
que não tenha sonhos
que não deseje

que olhe muda para as coisas
que se confunda com as coisas
que preste atenção nas coisas

que não entenda muito
que precise tocar
que participe

que seja pura como um bezerro
que seja amena como seda
que seja lenta como um cágado

que cale mais
que fale menos
que olhe, que olhe, que olhe

que não tenha pressa
que não queira saber o daqui dez anos
que não tenha futuro

que me convide para o agora
que me chame para o instante
que morra a cada hora

que viva bem sem ar-condicionado
que esteja bem por estar viva
que viva por viver

que não me pergunte o nome
que não me pergunte o que faço
que não me pergunte o que acho de sua prima

que me pergunte se reparei na lua
que me pergunte se vi aquela folha
que me pergunte o que acho da palavra rolha

que se esqueça das datas mais importantes
que se esqueça dos nomes de toda a gente
que se esqueça de comprar algo de que precise muito

que se lembre de que hoje é o último dia
que se lembre das fisionomias
que se lembre de dar algo de que goste muito

que se interesse pelos meus átomos
que encontre em mim regatos
que goste de pele humana

que me conheça por acidente
que avance direto ao ponto
que escancare logo as portas

que se reconheça num monte de bosta 
que tente praticar o melhor
que perdoe, que se perdoe

que abra mão de sua ferocidade
que abdique de seus direitos
que aceite os restos

que ame o sol da laje ou de Roma
que coma comida de micro-ondas 
que vista qualquer roupa

que um dia vá embora 
que volte - se for o caso - sem demora
que simplesmente vá ficando










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