poema 181

A eternidade é feita de novos homens, poeta
Apenas isso

Escrevas teus poemas, claro
Mas como portas para os outros
Para as coisas
E não fossem lascas de espelho
Argamassa pra sopros

Diz logo oi pro teu irmão, poeta
No elevador diz oi
Diz oi na rua
Diz pra um desconhecido um oi andando
Ainda que cause algum espanto

Se te fosses completamente indiferente
O outro
Farias como o mar
Que em silêncio
Em segredo
Produz suas pérolas

Mas tu não és assim, poeta
Tu és feito de homem
Tua verdadeira glória
(Que não é gloriosa
e nem verdadeira)
É a incessante construção de pequenas pontes
Pequenos círculos que se fecham

Por isso, poeta, não percas tempo
Teu peito é pequeno pra guardar tanta coisa
Não percas a chance de atingir o outro
E confia que acabarás por sorrir também
Muda-te para fora de ti
Instala-te no entre
No agora
Torna-te rio a unir margens

Batuca as coisas mortas
Porque o som que se faz é vivo
Faz chover onde está seco
Leva luz
Desata tensões

E se queres de fato estar à altura
Daquilo que de bom fizeres
Desce ao chão, poeta
Porque tuas torres não passam de quedas
E não há público para teus voos de condor
Pra tuas retinas de eleito

Não leva apressado tuas descobertas
Pra frente do espelho
Pras mil letras do teu Eu
Faz como as abelhas
Espalha o pólen
Ajuda na germinação das coisas

Perdão por concluir com uma obviedade, poeta
Mas preciso dizê-lo:
tu não és um Poeta
que te disfarças de homem
Tu és um Homem
Antes Homem, poeta
Que vez ou outra
Recebes o dom da poesia
E trabalhas como artesão

Por isso, amigo
Desfaz os nós da tua cara
Libera o teu sorriso verdadeiro
Apaga as linhas que te apartam
Abandona logo essa postura
Que é pura impostura


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha