Prometeu negro




Como um Prometeu moderno, os negros do Jazz sacaram sua música de algum lugar secreto e nos entregaram de bandeja.
Rasgaram o útero da coisa - com seus bisturis cirúrgicos - e o líquido amniótico da vida esparramou-se. Nós o lambemos feito cães encarniçados em nossas salas de estar, nos clubes espalhados pelas cidades, esse líquido ancestral, extraído do vácuo. Ignoramos o feto que desfila bem diante de nossos olhos, agora descoberto; infantilmente, parecemos não saber que ou a música desnuda ou obnubila, que não há meio termo. Que ou se vive no prazer fácil, na atmosfera agradável de um drinque e banalidades extasiadas, ou se percebe, de repente, que o som que esses negros promovem é a própria linguagem celular, o choque entre partículas subatômicas, o rearranjo do vazio, o esplendor do nada.
Em notas frenéticas, os negros do Jazz, em uma linguagem que dispensa verbo, nos reconectam ao Verbo divino, supremo, incandescente. E não há mais negros, brancos ou amarelos. Desaparece o emissor, há apenas uma reminiscência de um nome, e a grata alegria de se estar em contato com algo sobre-humano, além-túmulo. Como se sustenta no ar aquele trompete?
Mas a verdade é que eles são cães tão (ou mais) miseráveis quanto nós. Carregar fogo queima, chamusca a mão, a boca, a alma. E se bobear, nós somos as correspondentes águias que devoram o fígado desses negros, exigindo mais luz, fagulhas a relampejar a escuridão monótona em que nos metemos. Porque não há dúvidas de que a vida se tornou uma adorável porcaria ou uma porcaria adorável. Nenhum cão rejeita seu osso...
Talvez por isso é que tantos enlouqueceram; imagino que davam-se conta, em algum momento de suas vidas, de que o clarão que produzem nunca será suficiente à humanidade que meteu os pés pelas mãos, que construiu um resplandecente e bem decorado beco sem saída. Ouve-se um bom jazz em um bom restaurante em boa companhia. Tudo do bom e do melhor. Alisa-se a barriga and that’s the way it is. Olha-se de viés, obliquamente, para o trânsito da rua, os filhinhos que crescem, e o indolente lampejo de lucidez evapora-se como o álcool que também se consumiu. Esqueci de mencionar que o vinho era de primeira. Safra tal. Uva qual. Uau! Sim, sim, a música foi maravilhosa. Tocavam estupendo. E amanhã? Onde vamos? Amanhã...
Maldito tempo, porco calendário. Se apenas uma de nossas noites não terminasse, continuasse sem fim, o império dos bêbados e loucos se estabeleceria, e do caos, das horas esticadas, talvez...
Com esse jazz, equilibra-se na corda bamba. Anda-se em vertigem, adrenaliticamente, para o ontem de daqui a algumas horas. O veneno inoculado por essas cobras douradas não surte mais efeito. Se é que surtiu algum dia. Talvez o melhor fosse... mas como, como? Isso os negros não ensinam. Apontam por uma janela. Vejam, vejam. Não sei mais do que apontar uma miragem. Como me exigem a abertura de uma porta que nem mesmo eu cruzei? Bastardos. Provocam o desejo. Estendem uma mão. Mas será que estaríamos dispostos a cruzar a rua?
O que fazer depois de se pressentir que se cuspiu o fogo da vida pelo gargalo de um trompete, mas lembrar-se de que no fundo se é um pobre e solitário e nu e miserável ser humano?
Isso deve dar um nó na cabeça na cabeça desses caras.
Mas assim mesmo... que deleite supremo nós – os receptáculos desses homens filtrados pela centelha divina que é o jazz, afortunadamente livres de si mesmo naquilo que fazem – sentimos em suas notas agudas, em que prazer labiríntico o bop nos mete. Pitonisa Miles Davis que se comunica via sussurros ou verdadeiros punchs em nossas carinhas bem cuidadas. Bird que se coloca como cânions por onde avança veloz uma enxurrada de magma. Lester Young, lorde Lester, com sua classe de pai de todos, que mais se diverte em atrasar os compassos, pondo em choque nossa acostumada compreensão, cuja memória é desafiada por uma recordação que não se realiza inteira, e de repente estamos ouvindo duas canções, a da memória catalogada e aquela que-meio-que-se-arrasta. Chet Baker, o Apolo do Jazz, com seu sopro de veludo, ordenado mesmo quando confuso, dissipação retilínea, linhas derivadas de um rosto duro, quadrangular. Count Basie, seus beiços em frenesi, seus delicados espasmos, sua alma que se expressa toda em sua cara que se agita, seus sorrisos que se misturam aos sons. Thelonius com suas marteladas cruzadas, macaco agitado, seu derrapar de notas, suas de repente doces sequências, quedas d’água que se concretizam, seu desfile hipnótico por entre os músicos da banda.
Ficamos sempre com a parte final de alguma coisa que não é completa. O fracasso desses anjos caídos é nossa recompensa, torna-se o biombo que se interpõe entre o agora e o agora. E nós nos agitamos em nossas jaulas sem grades, e batemos nossas asinhas descartáveis. Está na hora, meu bem. Será que demoram para trazer o carro?
E o lancinante olhar final que secretamente sabe que o fracasso se perpetuou mais uma vez, cordiais sorrisos de despedida, obrigado, que bom que gostaram, muito obrigado. No fundo desses olhos de agradecimento gentil, sabem que não houve troca, que o pacto não se estabeleceu, e que a música, seu esforço rouco, não foi suficiente para fazer com que todos se levantassem e percorressem em fúria as ruas da cidade e começassem uma jornada de passos que se interromperia apenas ao cansaço das pernas e não pela ordem de vontades apáticas, raquíticas, mas muito bem domadas, sim senhor. Você já colocou o despertador, querido? Atrase meia hora, por favor. Vou poder dormir mais um pouco amanhã. Sim, desmarcaram aquela reunião.

Solitário cão que latiu à exaustão, mas que não despertou a vizinhança. Não há como deixar de ser homem é o que descobriram os portadores desse fogo divino; que se estará para sempre um passo atrás, por mais que ronquem, por mais que raspem, suas notas não atingirão o núcleo do iceberg, não farão despencar estrelas. Que o máximo que se pode conseguir é reproduzir o esforço da criação, que não existe um ponto ideal. Que até o último dia se estará correndo atrás, e que no último minuto de nossa última reflexão, reviveremos toda a saga que se reproduziu ao longo de toda a nossa vida: certezas, dúvidas, fracassos, derrotas, amor, ódio. E que a vida é a eterna promessa de um rugido como os de Coltrane, que por mais que invista contra todos os muros existentes, não os derruba. E que virá o silêncio; o silêncio que já estava e que, na verdade, sempre esteve.

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