poema 176

O transbordamento de um amor é a plenitude de um bom dia. E nisso estará a graça divina.
A evolução do amor deve ser contida; caso contrário, transforma-se em ânsia angustiante.
É tão admirável nosso esforço humano.
O homem é uma tentativa admirável.
Vi as entranhas expostas de um corpo de bombeiros, todo feito para permitir rápidas evacuações. Vi dependurados os uniformes prontos para serem usados, em uma espera que não se quer que termine.
Meu amor repousa nas coisas distantes, nas bandeiras que tremulam ao vento indiferente.
Meu repouso reside na eternidade da matéria.
Assisto aos homens com um olhar de pupilas dilatadas e daí os amo.
É preciso espalhar aquilo que aprendemos. O conhecimento que aparta, as capas de ouro, não servem de nada.
Na penumbra de uma pequena porta de comércio, uma velha corcunda rodeada de flores, reverberando meus passos na calçada, ergueu a cabeça. Nós nos olhamos. O mundo vê a si mesmo. Num átimo, nascemos, vivemos e morremos.
Do outro lado, também há mortos. O cemitério traga todos os sons para o interior de seu silêncio.
As manchas nas costas dos prédios velhos, suas janelas, suas pequenas janelas de vidro temperado que nunca que me deixam descobrir a marca do shampoo de seus donos.
Roupas secam.
Cigarros fumam.
O amor que se fixa em um objeto imobiliza. E a vida deve ser movimento.
Nosso tempo exige pequenas ações, o dia-a-dia das realizações.
Mas tudo o que fazemos se perde no grande vale por onde passam as eras.
Claro que é preciso fazer.
Mas viver no efêmero nos torna mesquinhos.
É preciso equilibrar-se na corda bamba entre o hoje e o sempre.
Os mendigos, os vagabundos, os maltrapilhos, são os para-raios da loucura que é de todos nós. São nossos bodes expiatórios. Deveríamos amá-los, respeitá-los e prestar auxílio.

A perdição do homem é olhar de cima e chegar ao ponto de realmente acreditar que existem homens.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha