Ladybird

MAGNUM/Patrick Zachmann


E nós nos damos pequenas informações aparentemente inofensivas. É nossa primeira noite juntos (a única), nós nos conhecemos três ou quatro horas atrás. Você me diz, por exemplo, entre tantas coisas, depois de tantas coisas, que seu pai é fotógrafo e a aranha decide reter justamente essa informação em sua teia. E isso basta para que meu coração vorazmente tente imaginá-lo, vê-lo em seu trajeto para o trabalho, conversando com amigos, contemplando um entardecer. Será que ele toma o metrô? Qual é a primeira coisa que ele diz ao chegar ao trabalho? Mais ou menos em que momento da manhã ele faz a sua primeira pausa? Esse homem, cuja existência me será completamente alheia, mas que viveu aqui entre sussurros disputados pelo calor da nossa noite e a manhã do dia deles....

Ele não toma o metrô. He goes in his scooter.

O.k. I thought that you were sleeping on my shoulder. Mas você está acordada e, mais ainda, tenta decifrar o que eu escrevo no escuro deste quarto.

E você começa a falar-me mais desse homem cuja existência imaginada cresce por dentro de mim, ocupando meus espaços internos como um cimento que crescesse, como se eu o vestisse.
Ele trabalha na Magnum. Claro, claro que eu conheço. Começamos a ver suas fotos na escuridão do quarto, enquanto os pássaros devagar arranham a manhã. Você não vai conseguir ver todas as fotos, são mais de mil. Você está em alguma delas? Sim, sim. Então eu quero vê-la.


                                                            Esta sou eu. Sim, eu notei. Seus olhos mais profundos que o normal. Bem pequena, uma criança saindo de um quarto, recém desperta. Com sua amiguinha a seguindo, de olhos quase fechados na exploração fora de hora. Que surpresa o fotógrafo deve ter sentido, provavelmente num domingo cedo, quando é tão bom despertar por qualquer bobagem, sabendo-se que depois se voltará à cama sem nenhuma outra preocupação que não a de aquecer-se o melhor que se puder. Os olhos de fotógrafo de repente se coçam e ele corre a buscar a câmera. Será que ele pediu espere um pouco, minha filha, não saia daí, e foi buscar sua câmera, voltando rápido, pronto para com seu clique captar: vida. Duas crianças pequenas, com cara amassada de sono, com seus panos de dormir, caminhando em fila indiana por uma casa parisiense. Vida após vida. Foto após foto. Não há espaço para tanto passado no meu peito apertado. Essas fotos massacram-me. De repente, sinto medo.

Busco no calor da matéria a compreensão que me falta. Toda a nação francesa respira agora em meu ouvido, ouço o latejar dos corações de toda a população de um país. Sinto no seu regaço de musa renascentista o calor reconciliador dos deuses=átomos. Sim, há um mundo para se fotografar, mil mundos para se pintar e um milhão para se escrever. Não há motivo para medo. A única proporção que importa é a medida do amor. Quando se percebe que se faz parte de uma única trama, não importa mais quem é o autor (autor?) das belezas, das façanhas, dos monumentos. Importa o sentido de participação, a vontade de compartilhar. É preciso tornar-se pequeno para ficar grande.


O escuro da noite desbota um tom e torna-se azul. Há uma escala para as cores? Coisas que você me faz pensar, veja só. Sorrio sozinho, porque seu sono agora é profundo. A manhã irá irromper logo mais, rasgará o útero que a recupera todos os dias. Vivemos na eternidade. Por que é tão difícil perceber? Mas os momentos agudos nos dão pistas. Como manter o rastro dentro das estúpidas horas lúcidas? Não vou conseguir dormir mais. Em uma hora, levantarei para nadar. Na água, também aprendi a me reconciliar. Mas falta muito ainda. Fomos ensinados a ser ferozes e custa desaprender. Obrigado por essa momento de vida. Obrigado, ladybird.

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