O terno vinho


Chamavam-no doutor. Não que o tivesse sido. É que faziam piada dele na família. Em todas as festas, vestia terno. Nos velórios também, claro. Cerimônias em geral. Sempre o mesmo. Tinha apenas um. O salário de porteiro de prédio não permitia que comprasse outro. Seu único terno era cor vinho. A piada aumentava. No trabalho, vestia o uniforme simples de porteiro: camisa azul de mangas curtas e calças escuras. Mas se pudesse, iria de terno. A mulher, com pena, dizia que os patrões iriam estranhar. Era melhor não. Ele aceitava. Ela o amava. O vinho ficava apenas para as festas.
Depois de se aposentar, ganhou a liberdade dos aposentados. Quando saía de casa, fosse onde fosse, botava o terno. Sempre o mesmo. Continuava sem dinheiro para outro. O terno mantinha alguma classe. Ele o conservava bem, como é de se supor. Mas perdera totalmente o brilho e no vinho pareciam ter despejado um pouco de água: a cor se enfraquecera e quanto a isso não havia o que fazer. A mulher se enternecia e sorria um sorriso de compreensão e de amor. Que fizesse o que quisesse, pobre homem.
Um dia, tinha saído para comprar pão e receber a aposentadoria. Era um de seus passeios mais longos e completos. Depois de comprar o pão, levava-os debaixo do braço com uma elegância, atravessava a rua. Um carro azul cruzou o sinal vermelho e o acertou no meio. Foi direto para o velório.

Na cerimônia, os mais atrevidos cochichavam pelos cantos e, apontando o terno vinho desbotado, diziam que pelo menos o morto não tinha dado trabalho para ser vestido, que o velho já andava pelas ruas pronto para virar defunto.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha