poema 77

As pedras estão fartas de descrições. Para cada mil homens, há mil pedras da mesma pedra. Para cada homem, há apenas uma. As outras novecentas e noventa e nove pedras engordam em algum lugar do mundo e se condensam aqui e ali, no nazismo ou na violência na avenida paulista. E ninguém percebe que dessa matéria doente, dessa gordura oca, não se poderia fazer outra coisa...

Tantas coisas nascem já mortas. Mas o lixo sempre termina em algum lugar. Mas nos surpreendemos - o surpreendente é que nos surpreendemos. Quando algo irrompe, explode, nós quase não acreditamos. Mas como, se ontem eu tomava um sorvete de framboesa saborosíssimo!? Não tenho dúvidas: todas as conversas entre paredes geram o refugo, o sangue podre que corrompe o mundo, que o emporcalha. Ah!, se eu soubesse que o menor dos meus descasos assassinará um homem daqui a mil anos, perfurará a carne de outro na periferia da minha própria cidade bem agora. Se eu soubesse que um mundo desumano é resultado da minha mais elementar desumanidade. Os homens fotografam flores, mas não as enxergam! Nossos dedos cresceram tanto, mas tanto, que não conseguimos mais manejar minúcias...O deserto dorme à espreita dos mais gloriosos festins. Um silêncio de facas pende sobre a cabeça do mais talentoso orador, que fala a uma plateia sentada em dinamites.

(Se eu conseguisse aprender e ensinar que o maior refinamento possível, o maior ato de rebeldia, seria ouvir com atenção, sí-la-ba por sí-la-ba. )

Tantos mundos que se espremem em calçadas estreitas, quantos corpos etéreos entre dois corpos físicos, tantos sonhos distintos que falsamente se entendem em diálogos forjados. Mil volts sobrecarregam nossos silêncios. O cão ladra em falso, late mudo. Claro que, assim, falar, simplesmente falar, o tão só ato de falar, significa cometer injustiças, praticar violências brancas. Um simples e sutil “sim”, um adocicado “mas é claro”, penetra como um mel repleto de pregos e vidro estilhaçado.

Gritam contra a violência
Eu me assusto com o menor dos descuidos...

Chocam-se com a corrupção
Eu tenho medo da cobiça daqueles que contra ela gritam...

Pedem paz, já! paz, agora!, paz, paz, paz, paz!
Mas para mim
A maior violência é a da pressa...


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