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Mostrando postagens de Junho, 2013
no sonho, incendiávamos um apartamento, depois de termos matado um homem. mas não me lembro do momento exato de sua morte. (como o matamos? e fomos nós mesmos? era o que parecia.) o homem tinha alguma relação com minha irmã, que estava na casa. ela mais me observava do que agia. (será mesmo que havia alguma relação entre ambos?) espalhamos álcool pela casa. o homem tinha o rosto do ator que fez Truman Capote. ele possuía dois corpos. um estava na sala principal do apartamento. o outro, em um quarto intermediário, após o qual um corredor levava até o banheiro. um banheiro retangular, relativamente grande, que tinha uma daquelas banheiras brancas de estilo antigo. banheiras abandonadas de jardim. ateei fogo nos dois corpos do mesmo homem e no apartamento. usei fósforos. não me lembro exatamente da fuga. (conseguimos fugir?) mas há um flash no exterior do apartamento, um longo corredor recheado de portas de apartamentos e da escadaria.

O terno vinho

Chamavam-no doutor. Não que o tivesse sido. É que faziam piada dele na família. Em todas as festas, vestia terno. Nos velórios também, claro. Cerimônias em geral. Sempre o mesmo. Tinha apenas um. O salário de porteiro de prédio não permitia que comprasse outro. Seu único terno era cor vinho. A piada aumentava. No trabalho, vestia o uniforme simples de porteiro: camisa azul de mangas curtas e calças escuras. Mas se pudesse, iria de terno. A mulher, com pena, dizia que os patrões iriam estranhar. Era melhor não. Ele aceitava. Ela o amava. O vinho ficava apenas para as festas. Depois de se aposentar, ganhou a liberdade dos aposentados. Quando saía de casa, fosse onde fosse, botava o terno. Sempre o mesmo. Continuava sem dinheiro para outro. O terno mantinha alguma classe. Ele o conservava bem, como é de se supor. Mas perdera totalmente o brilho e no vinho pareciam ter despejado um pouco de água: a cor se enfraquecera e quanto a isso não havia o que fazer. A mulher se enternecia e sorria u…
UM ADEUS PORTUGUÊS
Nos teus olhos altamente perigosos vigora ainda o mais rigoroso amor a luz dos ombros pura e a sombra duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo à roda em que apodreço apodrecemos a esta pata ensanguentada que vacila quase medita e avança mugindo pelo túnel de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira onde passo o dia burocrático o dia-a-dia da miséria que sobe aos olhos vem às mãos aos sorrisos ao amor mal soletrado à estupidez ao desespero sem boca ao medo perfilado à alegria sonâmbula à vírgula maníaca do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo em trânsito mortal até ao dia sórdido canino policial até ao dia que não vem da promessa puríssima da madrugada mas da miséria de uma noite gerada por um dia igual

Não podias ficar presa comigo à pequena dor que cada um de nós traz docemente pela mão a esta pequena dor à portuguesa tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces esta roda de náusea em que giramos até à idiotia esta pequena morte e…

poema 77

As pedras estão fartas de descrições. Para cada mil homens, há mil pedras da mesma pedra. Para cada homem, há apenas uma. As outras novecentas e noventa e nove pedras engordam em algum lugar do mundo e se condensam aqui e ali, no nazismo ou na violência na avenida paulista. E ninguém percebe que dessa matéria doente, dessa gordura oca, não se poderia fazer outra coisa...
Tantas coisas nascem já mortas. Mas o lixo sempre termina em algum lugar. Mas nos surpreendemos - o surpreendente é que nos surpreendemos. Quando algo irrompe, explode, nós quase não acreditamos. Mas como, se ontem eu tomava um sorvete de framboesa saborosíssimo!? Não tenho dúvidas: todas as conversas entre paredes geram o refugo, o sangue podre que corrompe o mundo, que o emporcalha. Ah!, se eu soubesse que o menor dos meus descasos assassinará um homem daqui a mil anos, perfurará a carne de outro na periferia da minha própria cidade bem agora. Se eu soubesse que um mundo desumano é resultado da minha mais elementar d…