Questões de Poesia, de Paul Valéry



“Essas pessoas sentem a necessidade daquilo que geralmente não serve para coisa alguma e, às vezes, percebem não sei que rigor em certos arranjos de palavras totalmente arbitrários a outros olhos” (Sobre aqueles que amam a poesia);

“Tudo lhes serve, sem que sequer duvidem, para fugir do essencial ou para iludi-lo inocentemente” (Sobre os críticos);

“Por mais que contemos os passos da deusa, que observemos a frequência e o comprimento médio, não obteremos o segredo de sua graça instantânea”;

“Conheci homens tão ciumentos do que admiravam perdidamente que suportavam mal a ideia de que outros estivessem apaixonados e até de que conhecessem, imaginando seu amor prejudicado pela divisão”;

“Quanto aos espíritos, já se vê que são solicitados e seduzidos por tantos prestígios imediatos, tantos excitantes diretos que lhe dão, sem esforço, as sensações mais intensas e representam-lhes a própria vida e a natureza totalmente presente, que podemos duvidar se nossos netos encontrarão o menor sabor nas graças antiquadas de nossos poetas mais extraordinários e de qualquer poesia em geral”;

“Outros, um pouco mais exigentes, tentaram, através de uma análise cada vez mais sutil e precisa do desejo e do prazer poético e de seus meios, construir uma poesia que nunca pudesse ser reduzida à expressão de um pensamento, nem ser, portanto, traduzida, sem se perder em outras palavras. Perceberam que a transmissão de um estado poético que conduz todo o ser sensível é uma coisa diferente que a de uma ideia. Compreenderam que o sentido literal de um poema não é, e não realiza, toda sua finalidade; que ele não é, portanto, necessariamente único”;

“Contudo, apesar das pesquisas e das criações admiráveis, o hábito adquirido de julgar os versos de acordo com a prosa e sua função, de avaliá-los, de alguma forma, conforme a quantidade de prosa que contém; o temperamento nacional tendo-se tornado cada vez mais prosaico desde o século XVI; os erros espantosos de ensino literário; a influência do teatro e da poesia dramática (ou seja, da ação que é essencialmente prosa) perpetuam muitos absurdos e muitas práticas que testemunham a ignorância mais estrepitosa das condições da poesia”;

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