Primeira aula do curso de poética, Variedades, Paul Valéry



“Contudo, pode acontecer, ao contrário, que se adquira por essa curiosidade um interesse tão vivo, que se atribua uma importância tão grande em segui-la, que sejamos levados a considerar com mais complacência, e até com maior paixão, a ação que faz do que a coisa feita”;

“Sabemos, contudo, que o verdadeiro sentido de tal escolha ou de tal esforço de um criador está frequentemente fora da própria criação e resulta de uma preocupação mais ou menos consciente do efeito que será produzido e de suas consequências para o produtor. Assim, durante o trabalho, o espírito vai e volta incessantemente do Mesmo para o Outro; e modifica o que é produzido por seu ser mais interior, através dessa sensação particular do julgamento de terceiros”;

“Estas distinções na noção de obra, que acabo de propor, e que a dividem, não através da procura de sutileza, mas através da referência mais fácil a observações imediatas, tendem a pôr em evidência a ideia de que me servirá para introduzir minha análise da produção das obras do espírito”;

“E quando o texto de um poeta é utilizado como compilação de dificuldades gramaticais ou de exemplos, ele deixa imediatamente de ser uma obra do espírito, visto que o uso que se faz é inteiramente estranho às condições de sua produção (...)”;

“Um poema sobre o papel nada mais é do que uma escrita submetida a tudo o que se pode fazer de uma escrita. Mas, entre todas as suas possibilidades, existe uma, e uma apenas, que coloca finalmente esse texto nas condições em que ele adquirirá força e forma de ação. Um poema é um discurso que exige e que provoca uma ligação contínua entre a voz que existe e a voz que vem e que deve vir. E essa voz deve ser tal que se imponha e excite o estado afetivo do qual o texto seja a única expressão verbal. Eliminem a voz e a voz que é necessária, tudo se torna arbitrário. O poema transforma-se em uma sequência de sinais que só estão ligados por estarem materialmente traçados uns depois dos outros”;

É a execução do poema que é o poema. Fora dela, essas sequências de palavras curiosamente reunidas são fabricações inexplicáveis”;

“Quando dizemos que nossa opinião sobre tal assunto é definitiva, dizemo-lo para que ela fique assim: nós apelamos aos outros. O som de nossa voz garante-nos muito mais do que esse firme propósito interno que ela pretende sonoramente que formemos”;

“Mas nossa vontade, nosso poder expresso, quando tenta voltar-se para nosso próprio espírito e fazer-se obedecer, sempre reduz-se a uma simples pausa, à manutenção ou então à renovação de algumas condições”;

“Não temos qualquer meio para atingir exatamente em nós o que desejamos obter.
Pois essa exatidão, esse resultado esperado, e nosso desejo são da mesma substância mental e talvez incomodem-se reciprocamente através de sua atividade simultânea. Sabe-se que frequentemente acontece de a solução desejada chegar após um tempo de desinteresse no problema, como a recompensa da liberdade dada a nossa espírito”;

“Entre essas obras, o uso cria uma categoria denominada obras de arte. Não é fácil tornar preciso esse termo, se é que necessitamos fazê-lo. Primeiramente nada distingo, na produção das obras, que me obrigue nitidamente a criar uma categoria da obra de arte. Encontro quase sempre nos espíritos atenção, tateios, clareza inesperada e noites obscuras, improvisações e tentativas, ou repetições muito insistentes”;

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