poema 76


Náufragos em adocicado anúncio
Fiadores de um universo ainda em construção
dividimos a pangeia e sacrificamos toda uma era

Estações silenciosas de um mundo ainda brasa
Primaveras, Outonos, Verões e Invernos
que engendrariam o fruto de milhões de anos
depois
não vieram...

Inventamos a vida no espaço
mas no vácuo nada vive
(É no úmido da terra que se chupam duas raízes)

De um pálido pórtico
premeditados de incertezas
classificamos o mundo
aniquilando a possibilidade das flores

AFIRMAÇÕES foram feitas despudoradamente
(antes de seis meses, todas as palavras são assassinas)
Abrimos a boca antes do nascimento das cores
e vomitamos vazios
Palavras-feto foram disparadas com suavidade
ferindo num lugar secreto
Palavras-dardo atingiram veias expostas
e a seiva lenta escorreu perdida

O rebento foi recebido por um cortejo fúnebre
e o clima de morte o espantou

A pintura do Arlequim desmancha mesmo
antes do último aplauso...
Pobre de quem vê sua cara desbotada
sua face revirada
carne viva de metal...

(Agora, entre as extremidades da noite
direi o que realmente importa:
Quero seus dedos nodosos
Suas costas retas como as costas retas das grandes geleiras do mundo
Seus terremotos suspensos, sua cor humana, sua cor babilônica
Quero seu magma, seu núcleo, o sopro da sua vida, sua célula primordial
que ainda guarda
a possibilidade de tornar-se um macaco
Quero do seu silêncio
beber as múltiplas gradações e matizes
Quero queimar as achas das suas duas coxas
Quero repousar nas suas peles tranquilas, nos campos de centeio louro, em vales quentes
Quero a obscura conversa de hálitos quentes
Dá-me...dá-me o que quero
e cairei de joelhos...Glória, glória à pérola que nas profundezas se prepara
para o após)


Ouça o poema

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha