falta largura de noite ao pensamento. sobra sono. inteligência movida a ausências. realizações famélicas. será que algum dia e apesar de? hoje, agora, se a noite durasse vários dias, talvez. mas ela não dura e minha coragem não é elástica. as pálpebras vão fechando e o momento agudo vira uma moeda que se atira à fonte, um sonho confuso que se vai ter logo em seguida. já tive a visão escarlate, mas ainda assim. um passo para frente, outro para trás. e a vida toda, o tempo todo, na vertigem do abismo. o abismo da cadeira mais confortável, o abismo do gesto mais louvável, o abismo do assassinato premeditado, o abismo do amor que se diz pleno. em algum lugar, nosso amor maceta flores, sacrifica fetos. mas do que falo? hoje, durmo de pé, faço greve de fome, sou um faquir. amanhã, amanhã vou tentar não pensar muito. o dia começa e vai se ajeitando. é bom acreditar naquilo que se diz. olhar pra baixo, só no banheiro, em segredo. é indispensável acreditar naquilo que se diz. e a vida é assim mesmo. e coragem, coragem, meu filho. duvidar de si mesmo só é mesmo para os loucos. quem racionaliza uma coisa dessa, dizendo em frase, não duvida coisa nenhuma de si mesmo. quem vai ler esta porcaria? por que e para quê? que vontade de arrebentar com tudo, de tiranizar, de oprimir, de cometer assassinatos, de me arrepender, de beijar um leproso, de amar, de destruir uma beleza, que vontade de ser o palco, de ser o Deus e o Diabo que se enfrentam nesse palco. que vontade de coisa nenhuma. amanhã vou sorrir, desde o primeiro momento do dia, irei sorrir. vou sorrir para o espelho, vou começar por ele. sorrirei, direi bom dia, bom dia, bom dia. se possível, darei tapinhas nas costas de alguém. tanto amor. amor? vou começar pelo café. o café eu entendo, tem um aroma compreensível. que escrita de merda, desorganizada, coisa de um incapaz para escrever uma trama, um enredo, uma epopeia. hoje em dia. tanto hoje para pouco ontem. hoje o dia não está mais para Homeros, meu bem. é que a internet. na Grécia. tudo já foi dito pelos gregos. então, que merda eu estou fazendo aqui? alguém me arrumaria um posto de estátua? chega. amanhã volto a acreditar. refazer a listinha das coisas que eu gosto. o Eu vai ganhando forma, engorda que é uma beleza. até cheiro ganha. cheiro de pão fresco. que delícia: o dia está começando! bom dia! bom di-a!

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