Quinta Elegia


MAS QUEM SÃO ELES, dizei-me, os saltimbancos, um pouco
mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância
por alguém torcido – por amor
de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce,
curva-os, entretece-os, vibra-os,
atira-os e os toma de volta! Do ar untado
e mais liso, eles resvalam
sobre o tapete gasto (adelgaçado
pelo eterno salto), esse tapete perdido no universo.
Emplastro aderido lá, onde o céu
do subúrbio feriu a terra.
                                            E apenas lá,
ereto, mostra a grande maiúscula
inicial da Derelicção...e já o renitente
agarrar torna a rolar os homens mais fortes,
por jogo, como outrora Augusto o Forte, à mesa,
brincando com patos de zinco.

Ah! e em torno desse centro,
a rosa do contemplar:
floresce e desfolha. Em torno do
triturador, o pistilo atingido por seu próprio
pólen florescente, novamente fecundado – fruto
aparente do desgosto, inconsciente de si mesmo –
com a fina superfície a brilhar
num sorriso leve, simulado.

Lá, o murcho, o enrugado atleta,
o velho que apenas rufla o tambor,
encolhido na pele poderosa como se outrora tivesse contido
dois homens e um já estivesse
morto, enquanto o outro sobreviver ainda,
surdo e um pouco perturbado,
às vezes, na pele viúva.

E o jovem, o homem, como se fosse o filho
de uma nuca e de uma freira: retesado e vigoroso,
cheio de músculos e de simplicidade.

Ó vós,
que um sofrimento ainda pequeno
ganhou alguma vez como brinquedo,
numa de suas longas convalescenças...

Tu, que imaturo, com o baque
apenas conhecido pelos frutos, tu que cem vezes
por dia cais da árvore do movimento construído
em conjunto (árvore mais ágil que a água, percorrendo
em minutos primavera, verão e outono) – cais e roças
o túmulo: às vezes, num breve intervalo, a ternura
hesita em teu rosto, diante de tua mãe raramente
carinhosa; mas logo se perde no corpo
que dissipa, leviano, a expressão tímida e incompleta...
E o homem torna a bater as mãos para o salto...Antes
que a dor se torne mais nítida e próxima do teu coração
sempre alterado, antecipa-a e à sua origem, o ardor
das plantas dos pés, que empurra à flor dos
olhos algumas lágrimas corpóreas.
E contudo, às cegas,
o sorriso...

Anjo, toma, colhe a erva medicinal de flores singelas!
Modela um vaso e dá-lhe abrigo! Preserva-a entre as
alegrias não desabrochadas; celebra-a em
carinhosa urna, com uma inscrição florida inspirada:
                                                                       Subrisio Saltat.

E tu, graciosa,
esquecida no silêncio
das alegrias vivas e apressadas. Talvez
sejam felizes por ti as franjas dos teus cabelos,
ou quem sabe, sobre teus seios jovens e túmidos,
a seda verde-metal sinta-se mimada e nada lhe falte.
Tu,
colocada sempre de um modo novo
sobre os carros oscilantes do equilíbrio,
fruto de feira da indiferença,
exibida ao público, entre os ombros.

Onde, onde é o espaço – levo-o no coração -,
onde, não podendo ainda, eles caiam
um do outro como animais que saltassem
para acasalar-se;
onde os lastros ainda têm peso,
onde os arcos ainda bamboleiam
fugindo às varas
que giram inutilmente...

E de repente, neste árduo Nada,
o ponto inexprimível onde a insuficiência pura
incompreensivelmente se transforma - e salta
àquela vazia plenitude
onde o cálculo de muitos algarismos
se resolve sem números.

Praças, ó praças de Paris, feira infinita,
onde a modista Madame Lamort
tece e retorce os caminhos inquietos do mundo –
numerosas fitas – em laços imprevistos, folhos, flores,
laçarotes, frutos artificiais, tudo falsamente colorido
para os módicos chapéus de inverno
do Destino.
............................................................................................

Anjo: talvez haja uma praça que desconhecemos, onde,
sobre um tapete indizível, os amantes, incapazes aqui,
pudessem mostrar suas ousadas, altivas figuras
do ímpeto amoroso, suas torres de alegria, suas trêmulas
escadas que há muito se tocam onde nunca houve apoio:
e poderiam diante dos telespectadores em círculo,
incontáveis mortos silenciosos. E estes arrojariam
suas últimas, sempre poupadas,
sempre ocultas, desconhecidas moedas de felicidade
para sempre válidas, diante do par
verdadeiramente sorridente, sobre o tapete
apaziguado.


Reflexões:

Muitos pontos dessa Quinta Elegia ainda não me são totalmente compreensíveis. Receberia muito satisfeito eventuais comentários que me ajudassem a elucidar essa elegia em sua plenitude. Mas aqui vão alguns comentários:

·      Que vontade nos torce? Menos dissimulada nos rostos daqueles que nada esperam, mas igualmente presente baixo as mais nobres vestes? A terra é um tapete gasto, adelgaçado pelo eterno salto (de tantas gerações que o pisaram?).

·      Um enrugado atleta que outrora conteve dois homens.
Dois homens que se opunham?
Nossa possibilidade de vivermos nossa dimensão épica?
Nossa submissão ao medo?
Essas distintas possibilidades existenciais equivalem aos dois homens outrora contidos?
Qual dos homens é o homem morto?
Cada um terá sua própria resposta...

·      Penso que Rilke retoma a Quarta Elegia, no ponto em que observa a dificuldade que encontramos em nos associar ao Todo ainda em vida.
Na Quarta Elegia, Rilke diz não sermos lúcidos como as aves migratórias e que, precipitados ou vagarosos, nos impomos repentinamente aos ventos. Aqui, a incapacidade do homem reaparece: “tu que cem vezes por dia cais da árvore do movimento construído em conjunto...”.
Fazemos inegavelmente parte da vida – e, por isso, construímos um movimento em conjunto com a natureza. Mas cem vezes por dia, despencamos. Será que, aos olhos de Rilke, desorganizamos a orquestra?
Nossa inconstância também é destacada. A ternura hesita em nosso rosto, mas logo se perde, dissipa-se. E voltamos a bater palmas para o salto, para os espetáculos humanos, menos exigentes e mais efêmeros. Não somos persistentes.

·      “Alegrias não desabrochadas”. Há aí uma ideia de contenção? De não confundir alegria com estardalhaço?
Buscamos todo o contrário, não é mesmo? Mais do que fazer desabrochar as alegrias, antecipamos o parto de todas as coisas, e celebramos e eternizamos e amplificamos.
Parece-me que o verdadeiro encontro com a coisa é silencioso e delicado.

·      Alegrias vivas e apressadas...Talvez contrastem com a ideia anterior, de alegrias não desabrochadas.
Mas, talvez, nossa dimensão física nos resgate: “Talvez sejam felizes por ti as franjas dos teus cabelos, ou quem sabe, sobre teus seios jovens e túmidos, a sede verde-metal sinta-se mimada e nada lhe falte.”
Qual a felicidade de uma franja senão sua própria potência de vida (por isso, neutra; nem viva nem apressada)? É o seio quem alegra a seda!

·      De repente, no “árduo Nada”, a insuficiência salta àquela vazia plenitude, onde o cálculo de muitos algarismos se resolve sem números.
É um momento de otimismo? Há finalmente um encontro? Um cálculo de muitos algarismos (nosso sem-número de questões) resolve-se sem números (resolve-se no mistério).

·      Retorno ao desolo? Às praças de Paris – praças humanas? Pontos em que os homens observam atentos os frutos artificiais, as falsas cores. É o espetáculo humano, que nos afasta do reencontro, do equilíbrio.

·      Rilke indaga ao Anjo sobre a existência de uma praça que desconhecemos, uma praça não construída por mãos humanas. Nessa praça, os amantes incapazes aqui, poderiam mostrar suas ousadas, altivas figuras do ímpeto amoroso...
O que então, para Rilke, é o que fazemos?
O amor ainda não se realizou?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha