Caquis



Naquela noite ele teve uma visão de como seriam as coisas muito tempo depois, de onde estaria. Muito depois de sua avó ter morrido, seus pais terem morrido. Não serviu nem para dar continuidade à família, essa coisa fácil que é ter filhos, que é acreditar que é isso mesmo que se tem de fazer. Mas nem nessa coisa fácil ele pôde acreditar.
Num asilo. Doente da memória. Esquecido de um passado de possibilidades irrealizadas. Nunca pôde. Não esteve apto.
Olha fixa e misteriosamente para um caqui. Sobremesa especial de almoço de final de ano. Os enfermeiros riem se perguntando o que é que ele vê no caqui. Cutucam um ao outro, riem. Mas ele não sabe o que olha. Não tem mais memória traduzível. Mas em algum lugar, uma brasa. Que eu conto porque conheço toda esta história, sou seu dono. Escrevi pra poder dormir, me livrar brevemente de um novelo que entalava a garganta da alma. Então eu conto: é que quando a avó vivia e ele era ainda muito jovem, comia caquis quando almoçava com ela. Sempre havia de sobremesa as frutas da época. A avó era pessoa saudável. Só não passou dos cem anos, porque, tarde na vida, mais ou menos quando alcançava os noventa, decidiu ficar triste. Não comia doces, ela era pessoa saudável. Viveu noventa e três anos. Noventa e... Sempre as frutas da época. Ele gostava especialmente de caquis e figos. Também adorava figos. Mas daí era esperar agrado demais pra esse bando de velhos largados aqui.

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