Falando de cinema em 400 palavras. American Gigolo (Gigolô Americano), Paul Schrader, 1979)



Beleza e inveja. Com essas duas palavras eu resumiria “Gigolô Americano”.

Julian Kaye (Richard Gere) é um homem extremamente belo. Seus comportamentos e gestos, a todo o momento, denotam a expressão da consciência do poder dessa beleza. Não por outro motivo, seus serviços são disputados por aqueles que querem agenciar seus serviços a mulheres endinheiradas.

Em uma de suas saídas, conhece acidentalmente uma mulher que julga ser a cliente que o espera. Não era. Kaye e Michelle Stratton, a infeliz esposa de um senador, acabam se envolvendo verdadeiramente. Paralelamente, uma cliente com quem estivera dias antes é encontrada morta e Julian se torna suspeito.

Julian flutua pelo mundo. Sua beleza o faz levitar. Sabe disso e não disfarça tal consciência. Isso o coloca em conflito com o mundo. Aqueles que o disputam, ao mesmo tempo o invejam. Todos querem deter a posse provisória de sua beleza, mas logo em seguida voltam-se contra ele como hienas raivosas.

Duas cenas em especial me chamaram atenção.

Na primeira delas, ainda antes do assassinato, Julian está sozinho em seu apartamento, dança e canta, enquanto escolhe a roupa que melhor o vestiria naquela noite. A beleza se sustenta solitária.

Outra, mais filosófica, me faz pensar que o diretor e roteirista Paul Schrader leu o escritor russo Dostoiévski, que, em especial no livro “Crime e Castigo”, defende que a alguns homens são concedidos determinados privilégios que os colocam acima dos demais. Já na condição de suspeito, um detetive de polícia feio e malvestido não sai de seu encalço. Os dois tem uma conversa enquanto Julian engraxa os sapatos. Surge o assunto de sua profissão, de como ela é contrária à lei. É o que lhe diz o inspetor. Julian pensa... E responde que algumas leis não devem ser seguidas porque são “estúpidas” e motivadas pela inveja! As leis, nesse contexto, servem como representação da própria sociedade e, portanto, a inveja coloca-se como um dos principais motores de absolutamente tudo.

A partir de determinado momento, o filme deixou de ser para mim a simples história de um gigolô que, alvo de uma cilada, é injustamente acusado de um crime. Tornou-se muito mais: a representação da disputa entre a beleza e seus adversários, movidos todos pela inveja. Shrader conseguiu trazer para a tela uma discussão profundamente filosófica e psicológica, sem ser pedante, usando de poucas falas e de uma história aceitável para a maioria.

Gigolô Americano é um filme incrível!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha