Ida a Mar del Plata. Não havia planejado essa viagem. Tive de acordar o Alejandro para que me abrisse a porta de saída do edifício. Bati levemente e quando entrei em seu quarto, já estava acordado. Acho que se assustou, pois estava em uma estranha posição de animal empalhado. Já na rua, busquei um táxi para me levar à Estación Constitución. Chegamos bem rápido. Sobrava-me tempo. Tomei café. Comprei pilhas e ao vendedor perguntei do banheiro. “O do térreo é um nojo. No andar de cima, há um melhor”. Subi. Chegando ao limiar da escadaria, assustei-me imediatamente. O andar superior da estação – que ocupa apenas parte de seu perímetro – é um deserto ocupado por mendigos. Os corpos enfileiravam-se em ângulo reto com a parede e se protegiam do frio. “O banheiro está fechado. Há que se usar o de baixo”. Virei-me em direção ao som. A mulher – a única parcialmente levantada; sentada e de costas grudadas na parede – sabia que o único motivo que levava gente até ali era o banheiro. Agradeci. Enquanto descia, tive um pensamento que me entristeceu: logo acima da estação que traz dos subúrbios legiões de portenhos até o centro de Buenos Aires, há uma poça de água parada - feita de homens e mulheres - alheia ao tempo. A afirmação da mulher – precisa e sem hesitação – fez-me pensar que seu desejo era de se conectar com o mundo (naquele momento, eu lhe representava esse mundo, embora ela não soubesse que...) e de alguma maneira dizer: ainda estou aqui.


Dia de neblina deitada nos longos campos de pasto que o trem atravessa. Parece-me que as vacas me assistem, que trocamos curiosidades, mas a distância não permite certeza. Talvez simplesmente mastiguem entediadas e de cara voltada para o chão

A neblina priva dos campos o horizonte e os torna misteriosos. Sinto uma estranha ilusão de mar. O verde dos campos e matos é desidratado

Sinto invadir-me a estranha felicidade que às vezes conheço

Percorrem-me coisas desconhecidas e banais

Divirto-me com este pensamento: o trem é como um niño atrevido que espia pelo buraco e vê:
a bunda das casas...

....e....

...um carro todo queimado pregado na eternidade de ponta cabeça!


É rápido o movimento, mas a repetição das coisas
dos campos
das casas
dos postes
como que as lentifica

O trem oferece paradoxos como:
a rápida lentidão do que se vê
a simultânea perda do que se ganha

Qual a metáfora definitiva para representar o fascínio que me provocam os trens?

Sinto-me mundo e percorrido pelas coisas
Torno-me palco e por mim as coisas passam

Vem daí o alívio que sinto?

É que o trem me destorna?

Há uma curiosíssima trama de reflexos que se reproduz no interior do trem

Por exemplo:

torno-me feito de pasto, postes,
coisas que passam...
árvores e porcarias 

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