Meu nome é Diogo, como Diego. 

É a maneira mais fácil de fazer com que os portenhos entendam meu nome. Quase todos entortam um pouco a cara. Conhecem Diego. Diogo, não.

O meu é Estela, como a cerveja. O dele é Santiago. Disse-me a mulher que me vendeu um alfajor no “Kiosco” praticamente ao lado da casa em que estou hospedado. São pequenas lojas que vendem doces e cigarros, bebidas e algumas generalidades. Santiago, ouvindo meu acento, percebendo que eu não era dali, virou-se interessado. Perguntou de onde eu era, ouviu a resposta e voltou à organização de alguns papéis. Curiosidade econômica e crua. Estela, por sua vez, sorriu muito. Pedi que me indicasse o alfajor de sua preferência. O dedinho gordo não hesitou um segundo. Comprei. Despediu dizendo que nos veríamos. O doce estava, de fato, muito saboroso.

A menina me respondeu que a cozinha estava fechada. Poderia servir-me apenas lanches simples. Pedi presunto, queijo e tomate. Enquanto isso, fui ao banheiro. Notei que trabalhavam duas garçonetes. Ambas jovens e igualmente mirradas. Era gozado vê-las ziguezagueando pelas mesas. As paredes do café eram todas de vidro. Subiam até o teto mais ou menos da altura das mesas. Desde dentro, via-se todo o exterior. Percebi que as conversas dos que estavam ali eram pontuadas por pequenos desvios para fora. Imaginei que muitas vezes por aqui pessoas devem ter pedido a seus acompanhantes, em conversas mais sérias, que parassem de olhar para fora e prestassem mais atenção, por favor. Mas era realmente difícil evitar. O movimento do outro lado era intenso e chamava a atenção. De uma das extremidades do café, emergia grande número de pessoas despejadas por uma boca de metrô. Nessa mesma região, um boliviano anunciava frutas. Em um plano posterior, passava o trem. Bela composição. Constantemente, os de fora olhavam para os de dentro do café e vice-versa.

Para voltar, tomei o metrô. Estava muito lotado. Linha verde. Antes, a vermelha. Na parte vermelha do trajeto, pude sentar e li um pouco. Na verde, todos se espremiam. A sardinha vizinha era uma garota pequena e branca. Nariz delicado e pontiagudo. Conversava com uma amiga que, pela disposição dos corpos, eu não distinguia. Senti vontade de conhecê-la. Saber de onde vinha, para onde ia. Apenas por curiosidade. Meter-me um pouco que seja em outra das veias da vida. Ouvir sobre uma trama que se constrói sem mim. Será que compreendem tal necessidade? Muita gente baixou comigo. A lata esvaziou-se consideravelmente. Ouvi um trompete. Entrara no contrafluxo. Olhei de volta para o interior do vagão: um senhor que aparentava idade acabara de iniciar sua apresentação. Pensei em retornar para ouvi-lo. Mas as portas foram mais rápidas. O metrô de Buenos Aires é uma verdadeira casa de shows. Músicos solitários com seus sopros ou violões. Duplas, e até mesmo trios, que apresentam tangos, batucadas, etc. Apresentam-se, pedem licença aos senhores e senhoras, e iniciam. Gostei disso. O marginal aqui parece despontar em todos os lugares. O portenho parece gostar disso. Muita gente contribui com os músicos que nos levam de uma estação a outra.

Quando ouvi o chamado, virei apressado. Desconfiei que alguém havia encontrado meu agasalho de lã. Eu já desistira de procurá-lo nas pequenas ruas da parte nobre do cemitério Chacarita. Dei-me conta de que se desprendera da alça de minha bolsa, quando estava prestes a abandoná-lo. Voltei. Foi quando, tendo desistido, tomava novamente o rumo da rua que ouvi o alerta. Jovem, jovem. Na parte nobre, os mortos e suas famílias possuem pequenos mausoléus. No entanto, muitos estavam com vidros quebrados e santos decrépitos. Vários deles, pelos danos sofridos, tinham o interior exposto, que, por isso, acumulava muita sujeira. Conclui que muitas famílias perderam a opulência do passado e não possuem mais condições de suportar os luxos de seus antepassados. Outra categoria de mortos tinha para si apenas o espaço de gavetas nas infinitas galerias subterrâneas do cemitério. Impressionaram-me bastante. Como segui continuamente, custei a encontrar uma nova subida para a superfície. Havia ainda aqueles que estavam simplesmente enterrados debaixo do chão. Nessa parte do cemitério, sobre o perímetro de cada morto, havia, como em qualquer cemitério, muitas flores. Mas havia também inúmeros cata-ventos que giravam. Deixei meus olhos boiarem rasteiros, para ver a planície dos mortos em perspectiva. Senti-me extremamente bem dentro desse cemitério. Senti-me estranhamente leve, limpo e satisfeito.

Saindo da região central, percorri toda a avenida Corrientes. Hoje, ao todo, caminhei por aproximadamente cinco horas. Apenas no cemitério, diminui o passo, para conhecê-lo melhor. Passei pela estação de trem em que queria averiguar a existência de uma linha que realizava passeios turísticos em um antigo trem maria-fumaça. A mulher que me atendeu não foi simpática. Percebeu que eu era de fora. Disse que o trem não ia mais até o destino tal, que eu mencionara em minha pergunta. Desconfiei que isso não significava a completa inatividade do trem, mas resolvi deixar de lado.

Na verdade, em muitos trechos, abandonei a avenida e fui costurando pelo interior dos bairros, de lado a lado. Paisagem urbana. Prédios residenciais, lojas de bairro, pequenos mercados. Parei para comprar um chocolate. Uma senhora de cabelos enferrujados, vendo meu mapa, perguntou para onde eu ia. Já tinha tudo sobre controle, mas lhe respondi mesmo assim, como se o seu auxílio me fosse servir de algo. Não vi sentido em dispensar a gentileza que queria oferecer-me. Chacarita. Ah sim, basta seguir reto, todo reto, sorriu-me contente e voltou para os óculos que descansavam sobre o nariz e aguardavam seu retorno a um bloco de notas. Ela pareceu satisfeita consigo mesma.

Pouco antes de chegar ao cemitério, cruzei uma linha de trem. No começo da caminhada, passei por debaixo de uma ponte pela qual passava uma linha de trem. Era a mesma. Em dado momento, abandonei definitivamente a Corrientes e segui por outra avenida. Ao longo de toda ela – percorri oito ou dez de seus quarteirões – havia infinitas lojas de acessórios de carro. Era um lugar que não possuía nada de belo. Reparava no interior das lojas. Vi dezenas de caras estáticas de homens que, por sua vez, olhavam para fora das lojas. Era estranho esse encontro. Pareciam diferentes mundos que se cruzavam. Ocupávamos o centro de curiosidade um do outro.

Café Tortoni. Café antigo. Ponto turístico. Disseram-me que o Borges costumava escrever ali. Também havia apresentações de tango no subsolo. Cheguei em cima da hora para a apresentação das 20:30h. Há três apresentações por dia, sete dias por semana. Desconfio que os argentinos devem fazer um pouco de troça do lugar, dizendo que é como uma linha de produção de shows de tango, preparados especialmente para turistas. Com muito verniz e pouca essência. Dividi a mesa com um casal de velhos. Enquanto os visitantes comiam, os atores e dançarinos foram chegando. Entravam por uma porta lateral, que os obrigava a percorrem um pequeno trecho do lugar onde estavam as mesas. Subiam então no palco e entravam por uma porta protegida por uma cortina de veludo vermelho. Passavam com extrema rapidez e de cabeça baixa. Vinham com suas mochilas e sacolas de pessoas comuns. Em poucos instantes, interpretariam seus personagens. Talvez por isso, enquanto iam chegando, desejassem preservar suas faces do público. Antes do encontro, uma mulher não deve ser vista sem sua maquiagem. Fiquei imaginando que, enquanto o público se alimentava festivamente, os músicos e atores se cumprimentavam secamente, fumavam cigarros, enquanto se preparavam com um misto de tédio e eficácia. Gosto do tango e não foi difícil apreciar a banda. Contudo, exageradamente teatral a apresentação dos dançarinos. Por alguns segundos, senti como se estivesse em alguma sala temática de um cassino em Las Vegas. Nunca estive lá, mas por algum motivo tenho para mim que nos Estados Unidos certamente existem cassinos com salas temáticas. A sala Tango. A sala Samba. A sala Flamenco. Eram três as dançarinas. Magras, brancas e esguias. Uma delas era especialmente bonita. Suas costas eram definidas. Os braços, finos. Os ossos sobressalentes. O tango é uma dança sedutora, de penetração, de encaixe. Os homens e as mulheres formam composições com os corpos. Composições em que a mulher paira imóvel no ar, imobilizada pelos braços do homem. Ou ainda em que quase encostam no chão. A beleza da mulher de ossos sobressalentes acabou por me tranquilizar. Do contrário, a atmosfera exageradamente artificial a que me referi acabaria por me angustiar. Deve haver outros lugares mais tradicionais que certamente se vangloriam de apresentarem um tango mais autêntico que o do Tortoni. E, assim, forjam sua própria identidade. Antagonismos falsos e estéreis. Pensei nessa espécie de disputa que deve existir e imaginei que, naquele exato instante, talvez um velho cabisbaixo estivesse andando por alguma rua escura e assobiando o tango de sua própria vida. Alegrei-me com esse pensamento. Pressentindo o fim da apresentação, antecipei o pagamento de minha conta. Foi reconfortante estar novamente na rua. Quem sabe não o encontrasse?

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