Decidi que iniciaria o dia pela Plaza de Mayo. Tomei a linha verde e desci na estação Catedral, o ponto final. Um grande número de pessoas baixou, o que provocou um ligeiro engarrafamento na região das catracas e também nas escadarias que levam à superfície. A extrema lentidão – em alguns momentos, parava-se por completo – não era normal, como me fizeram suspeitar as inúmeras cabeças que se esticavam em busca de uma resposta. Quando atingimos o ponto da subida em que o caminho se bifurcava em dois, um velho senhor que se deslocava feito uma tartaruga mostrou-se o responsável por represar o afluxo humano.

Já no lado de fora, tive a intuição de que deveria seguir pela esquerda. Mas ao girar a cabeça, avistei o Obelisco na direção contrária e decidi seguir até ele. Vi o Obelisco. Alguns segundos depois, já tinha o mapa aberto e confirmei minha suspeita inicial. Retornei por onde havia vindo. Na verdade, não voltei exatamente pelo mesmo lugar – a Avenida Diagonal Norte – mas pelas ruas menores que formam os quarteirões. Assim, no caminho até a Plaza de Mayo, passaria diante do Café Tortoni. Vi a entrada do Café Tortoni. Não parei. Um pouco mais adiante, o Café London City. Cortázar escreveu seu primeiro romance nesse café. Não parei. Ao contrário do Tortoni, o London é todo envidraçado e oferece à rua todo seu interior. Notei uma garota muito bonita que estava sozinha. Ela parecia esperar alguém. Mostrava-se ligeiramente tensa. Talvez não lhe agradasse a ideia de que julguem que estava sozinha. Por isso, demonstrava que estava em modo de espera. A essa altura, já era possível avistar a Plaza e, ao fundo, a Casa Rosada. Enquanto dava os passos finais desse percurso, notei uma placa diante de uma construção branca, com um portão gradeado, que anunciava lentilhas espanholas como o prato do dia. Finalmente, todo o conjunto da Plaza abriu-se para mim. Havia grandes construções em todos os seus lados. À minha esquerda, a Catedral, que mais se assemelhava a um Museu ou Tribunal. Entrei. Muitíssimos turistas fotografavam livremente. Pouquíssimas pessoas sentadas nos bancos dos fieis. Pensei comigo que talvez os argentinos tenham desistido de rezar naquele lugar e tenham aceitado sua transformação completa em um ponto turístico. E mesmo as pessoas que estavam sentadas pareciam mais interessadas em observar o movimento. Pensar nisso tudo, por algum motivo, entristeceu-me um pouco e senti vontade de rezar. Mesmo não sendo religioso, Deus me pareceu jogado de lado naquele lugar e acho que – característica minha - naturalmente quero me aproximar dos que foram atirados de lado. Rezei. Até mesmo ajoelhei. Quando já caminhava para ir embora, percebi um homem que se confessava diante de um padre sentado no interior de uma cápsula de madeira. Mas ela estava aberta. Era possível ver a ambos e ver os lábios do padre se movimentando. Eu imaginava os confessionários de outra forma, com o padre fechado em seu interior, comunicando-se por furinhos. De todo modo, gostei de ver essa pequena demonstração de resistência. Sai da igreja. Dei de cara com um mendigo que, recostado em uma coluna de concreto, agitava um copo de metal e pedia moedas. Não lhe dei nada. Internamente, justifiquei-me dizendo que estou aqui na condição de turista, o que envolve muitos gastos. Evidentemente, fui mesquinho. Mas logo adiante, estava a Casa Rosada e me desfiz desse sentimento com extrema facilidade.

Havia faixas estendidas por vários lugares. Os ex-combatentes das Malvinas pediam respeito à senhora Presidente da República. Diante das faixas, homens cabisbaixos tomavam mate e riam pequeno. O protesto era controlado. Sentei um pouco e abri o mapa. Para trás da Casa Rosada, um declive levava até a região do Porto. Há uns diques artificiais, depois a Reserva Ecológica e, por fim, o Río de la Plata. Senti vontade da Reserva. Comecei a caminhar. Buscava a Puente de la Mujer, que me levaria até a avenida que a margeia. Segui pela esquerda. Após algum tempo, resolvi perguntar. O jovem que me respondeu não pode ajudar muito, apenas me indicou a direção que eu deveria seguir, sugerindo que, mais adiante, eu perguntasse novamente. Pediu-me desculpas por não saber mais do que isso. Eu respondi que estava tudo bem. Continuei. Consegui identificar no mapa a rua em que estava. De fato, eu me aproximava. Finalmente, deparei-me com os diques e encontrei, à direita, a ponte que buscava. É uma região de prédios modernos, bem novos. Muito provavelmente, ocupados por empresas e escritórios. Trabalhar com vista para a água alivia um pouco, imaginei. Atravessando-a, reparei na água três ou quatro pessoas em caiaques. Pontilhavam as águas de maneira esparsa. Aproximava-se da ponte uma mulher que remava de costas para mim. Decidi esperar para tirar uma foto. Tirei três, na medida em que ela ia se acercando. Uma mulher argentina, de cabelos ruivos e com seus trinta e tantos anos, foi fotografada em seu caiaque e nunca saberá disso. Mais ainda, agora também escrevo sobre essa mulher... Gosto de pensar e provocar esse tipo de situação. Será que, em algum outro plano, dá-se um encontro entre nós? Talvez.

Finalmente, cheguei à avenida que ladeava a Reserva. De um lado, os carros, de outro uma vegetação estranha. Não eravam árvores, mas plantas que subiam em haste e que na extremidade tinham uma penugem cor de palha. Na calçada, aqui e ali, barracas que vendiam comida. Eu comeria de bom grado, mas decidi permanecer com fome para atiçar os sentidos. Perguntei a dois homens sobre a entrada. Disseram-me que eu ia bem e nada mais. Gostei dessa resposta e a agradeci com a cabeça. Diálogo econômico e austero. Cruzei ainda muitas pessoas, mas me lembro especialmente de dois engravatados que discutiam inversiones. Um deles me observou com interesse. Também um grupo de cinco ou seis amigos que conversavam gesticulado. Não consegui identificar o assunto.


Ao segurança que tomava conta da entrada, perguntei como funcionavam as coisas por ali. Ele me chamou de senhor e me pediu um segundo. Voltando de sua cabine, mostrou-me rapidamente um mapa e me entregou. Agradeci. Ele respondeu “Por favor”. É um hábito daqui. Os garçons, os vendedores, todos concluem seus diálogos dessa maneira. Comecei a caminhar já no interior da Reserva. Parei para urinar em um banheiro químico que encontrei. Saindo dele, aproximei-me de um banco para tirar o agasalho. Começava a sentir o corpo quente pela caminhada. Um grupo de três homens – carregando equipamentos de fotografia – se aproximou. Pararam bem próximo. Um deles veio sentar-se no banco. Olhou-me. Espreguiçando-se, celebrou o dia. De fato, era belo. Foi o que ele me disse. Eu respondi que era verdade e tomei meu rumo.

Do caminho principal, avistava-se o rio. Mas a vegetação atrapalhava um pouco. O rio não estava imediatamente ao lado. Havia um declive que o separa do caminho principal. Quando notei um desvio que parecia levar à margem, segui-o. Havia uma espécie de praia de pedras. Era possível seguir por ali e foi o que fiz por um bom tempo. Aqui e ali, parei para olhar a água. Sentia-me bem. Gosto de caminhar sobre pedras. Enquanto seguia, pensei que caminhar sobre pedras exige resistência e perícia: é preciso escolher bem onde se vai pisar. Agora percebo que esse foi um pensamento engendrado por minha vaidade. Mas não é algo tão preocupante. Ao mesmo tempo, consigo identificar a verdade nesse meu prazer. Continuei por um bom tempo e assobiava e brincava com melodias. Improvisava sobre o Bolero de Ravel. Lembro de outro pensamento que, por algum motivo, tive em inglês. “It’s good to be alone in the world.”


Avistei um homem. Ele também me viu. Nosso contato, então, anunciou-se. Surge uma estranha conexão entre os homens que se avistam em espaços ermos e vazios. Aproximamo-nos e lhe perguntei se seria possível seguir por ali, se seria possível contornar toda a Reserva pelas pedras. Ele disse que sim, mas que eu me cansaria. Respondi que gostava de caminhar. Tive de responder algumas outras perguntas que me fez. Brasileiro. Férias na casa de um amigo. Não, um amigo brasileiro. Sim, ele vive aqui. Não, não sei exatamente por quê. Consegui encerrar a conversa com um agradecimento e prossegui. Já de costas, ouvi novamente seu alerta de que eu me cansaria. Não respondi. Ele insistiu. “Você vai se cansar, mas talvez seja isso o que queira”. Sorri para mim mesmo e pensei que tinha razão. Depois de algum tempo, averiguei que o homem não estava mais ali. Mais adiante, porém, uma voz me chamou da altura do caminho, que estava à direta. “Você vai se cansar”, me disse com um sorriso na boca. Eu o olhei e me senti incomodado. Percebi que tinha consigo uma bicicleta e disse: “Você esta com sua bicicleta”. Ele finalmente percebeu e respondeu: “E você esta caminhando”. Voltei a concentrar o olhar nas pedras e continuei. Depois de um ou dois minutos, verifiquei que já se havia ido.

Abandonei a praia de pedras e voltei para o caminho. Ele estava certo. Torci para que não nos encontrássemos, pois isso lhe daria o direito de me abordar novamente. Deparei-me com uma região em que o caminho se abria em um descampado. Havia algumas mesas e ali era possível olhar diretamente para o rio e a praia de pedras. Escolhi a mesa em que me sentaria. Para chegar a ela, passei por detrás de uma garota que tomava sol ao lado de sua bicicleta. Percorri com os olhos, toda a extensão de seu corpo. Ela se vestia contra o frio, mas, deitada que estava, exibia um pequeno trecho de sua barriga. Formava-se também um pequeno vão entre a calça e seu corpo, nas extremidades dos quadris. O espaço era pequeno, para um ou dois dedos no máximo. Formava-se ali uma mistura de pele e sombra. Senti a excitação que os homens de outros tempos deviam sentir ao verem o tornozelo das damas, quando estas desciam de carruagens. Do outro lado, uma criança brincava com seu pai, que parecia ser bastante jovem. Foi nesse lugar que me sentei para escrever este texto. Foi um bom dia.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha