Um conto chinês e o DNA argentino




Diverte-me imaginar que a Cortázar lhe agradaria muito esse filme. Talvez terminasse dizendo que o roteirista e o diretor formam uma boa dupla de cronópios. Veria na tela, em alguma medida, a representação de uma de suas ideias motrizes[1]: o acaso e o absurdo como engrenagens centrais de uma implacável dinâmica que desconhecemos, mas cujos efeitos sentimos e, vez ou outra, quando se abre a porta, entrevemos.

Roberto é metódico, turrão, briguento. Reúne em si uma porção de características que, se vistas isoladamente, não agradariam a ninguém, mas que, debaixo de sua pele, por algum motivo, transformam-no em um sujeito que inesperadamente cativa. Não consegue conviver com nada além de suas manias e rituais e parece resistir à vida, àquilo que ela poderia oferecer-lhe depois das 23:00h, horário em que todos os dias, rigorosamente, apaga a luz de seu abajur para dormir. Roberto, talvez, inspire ternura, por haver abdicado, com tanta obstinação, a gozar da vida - único prego que recebemos em nossa caixinha Philips.

Até que cruza seu caminho um chinês recém chegado a Buenos Aires. O sofrimento provocado pela morte de sua noiva, que morrera esmagada por uma vaca, fizera-o abandonar o seu país. Sem falar uma palavra de espanhol, Jun termina na casa de Roberto, que, ainda que se incomode a todo tempo com a presença do hóspede, e duas ou três vezes o atire para fora, não consegue verdadeiramente abandoná-lo até que finalmente encontra o tio que vive na Argentina.

A história se opõe a Roberto. O filme nos mostra que seu apego à forma, à rigidez de sua rotina programada até os mínimos detalhes, resultam da conclusão que tirou para si: a vida é um completo absurdo, sem sentido. Sua mãe morrera ao dar-lhe à luz. Dezenove anos depois, seu pai, quando soube que ele lutava na guerra das Malvinas, também se fora. Sua obstinação em comprovar essa “lógica” o leva a colecionar histórias absurdas como a do barbeiro que, atingido por um cano, cortou a jugular de seu cliente, ou a de uma vaca que, caída de um avião, esmagou uma chinesa que ocupava um pequeno bote, em um tranquilo lago, à espera que seu noivo lhe entregasse o anel do casamento.

Sua reação diante da absurda morte de seus pais? De todos esses outros absurdos da vida? Entocar-se. Não viver a vida. No máximo, colecioná-la por meio de notícias de jornal coladas nas folhas de cadernos pretos de capa dura. E o filme quer mostrar a Roberto que sua escolha poderia ser outra diametralmente oposta! A de aceitar o absurdo, capitular diante dele, de suas regras invisíveis e implacáveis e irracionalizáveis. Aceitar que uma vaca levou a ele um chinês que, por sua vez, o levou a mulher que ele amava – e que também o amava – e a que tanto ele resistia.

Foi uma vaca, o que chama bastante a atenção. Mas isso, claro, é apenas para simplificar. Podem ser os cinco minutos a mais no banho, que o fizeram tomar este ônibus para o trabalho, e não aquele que acabara de passar. E podemos sentir – e sentir é a única forma possível de participar – a manifestação desse outro mundo em todas as coisas deste mundo...

Talvez Cortázar dissesse que é preciso finalmente aceitar a intersecção desses dois planos. Esse que conhecemos bem e que julgamos controlar – o da previsão do tempo e do jogo de futebol da quarta-feira à noite - e aquele outro com regras que serão sempre desconhecidas, mas cujas dádivas são oferecidas a todo o instante aos homens de boa vontade e um pouco de coragem.


[1] Para simplificar o texto, e não comprometer o ritmo, escrevo de tal maneira, mas é claro que estou falando daquilo que eu julgo ser uma das inspirações centrais do Cortázar. Claro que o mesmo, se não fosse o detalhe de estar morto, poderia tranquilamente desmentir-me.

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