Exercício - Construção do espaço pelo cheiro e uma digressão desavisada

Vou para o trabalho de metrô. Mas não necessito fazer nenhuma baldeação. Percorro quatro estações da mesma linha. É a verde. Para os habitantes da minha cidade, essa informação terá alguma relevância. Vila Madalena até Trianon-Masp. Terão uma idéia de onde moro e trabalho. Os outros poderão imaginar a cor que quiserem. Digo cores porque normalmente é o que utilizam para designar as linhas de metrô. Mas podem escolher quaisquer outros substantivos. Animais, por exemplo. Linha papagaio, linha orangotango. Pensar em tudo isso me fez imaginar que talvez fosse divertido utilizar adjetivos: linha apressada, linha desinibida, linha inflexível, linha maquiavélica, linha melancólica. Mas talvez isso não seja uma boa idéia. Pegar a linha melancólica em um dia triste não seria uma boa combinação para uma pessoa mística. Tomaria isso como uma prova irrefutável da ausência de sentido da vida. Haveria suicídios. Reclamariam a parcela de culpa do Estado...

Mas não era sobre isso que eu pretendia escrever.

Há alguns dias, decidi percorrer meu caminho de olhos fechados. Hoje farei a mesma coisa. Entro no vagão, escolho o assento, sento e me assento. E fecho os olhos. Procuro ficar imóvel. Sobram-me a audição e o olfato. Mas quero apenas cheiros e tapo minhas orelhas. Respiro loooooooooongamente. Tomo consciência do ar que adentra minhas narinas. Ainda tenho na lembrança o punhado de gente que entrou comigo. O exercício propriamente dito se inicia apenas a partir da estação subseqüente, em que entrarão mais pessoas, que não verei. Até esse momento, respirava um ar isento. Se havia odores agradáveis ou fétidos, ainda não os sentia. Mas logo após a primeira parada, que sinto com o corpo, com a breve interrupção do movimento, e seu reinício, sinto perfumes. Fragrâncias femininas. Também cheiros de homens limpos que tomaram banho e se prepararam para mais um dia de trabalho. Sei que essa primeira parada é a estação Sumaré. É uma das minhas preferidas. A jornada começa por debaixo da terra, mas essa estação fica acima de uma avenida. De olhos abertos, é possível ver o trânsito da manhã. Não é uma estação muito movimentada. O vagão não lota. Poucas pessoas costumam ter de ficar em pé. Não deve ter havido nenhuma novidade, pois senti um ou dos cheiros que se misturavam. A maioria das pessoas, pelo que noto, não usa perfume e toma um banho apenas suficiente. Sente-se o seu cheio apenas em situações mais íntimas.

A próxima estação se chama Clínicas. Normalmente, o vagão, já relativamente cheio, enche-se um pouco mais.

Puxando o ar, invade-me um odor de salgadinho, daqueles que costumávamos dizer brincando que foram feitos de isopor. Suspeito que uma criança deve ter entrado. E se entrou uma criança, estará acompanhada de sua mãe. Na superfície, circundam essa estação muitos hospitais. Normalmente, os passageiros que tomam o metrô nesse ponto são velhos carregando exames debaixo dos braços. Mães que trouxeram seus pequenos, ou estes que vieram acompanhar aquelas, pois não havia ninguém que os cuidasse. Muitos rostos de velhos, mães e crianças povoam-me a mente. Talvez eu os tenha visto aqui mesmo, ou talvez venham de outros lugares. Não se pode saber. De todo modo, o vagão está cheio.

Agora virá a Consolação. Grande afluxo humano.

E não houve surpresa. A Consolação é previsível. Não há um dia sequer que não entre no vagão um batalhão de pessoas. O ar que eu exalava, antes isento e muito pouco corrompido, de repente torna-se denso, extremamente pesado. São odores ruins, quase fétidos. Muita, muita gente entrou. Claro que haverá quem vem perfumado. O que me permite dizer que na batalha de cheiros, o fétido prevalece, pois é ele que me oprime, e quase me obriga abrir os olhos, para que eu possa extravasar por meio de outro dos meus sentidos. Mas resisto. Tal como esse cheiro, que parece formar um bloco compacto e duro, fica o vagão. Costuma ficar a tal ponto lotado, que não se vêem pessoas e sim pedaços delas. Braços, pernas, bundas, costas, pescoços, bocas. Há infinitos braços que vão ao trabalho.

A próxima é a minha. A respiração, por algum motivo, acelera-se. Será que alguém me viu e concluiu que durmo? Será que alguém estará me olhando quando abrir meus olhos? Decido que os abrirei com rapidez, mas não os fixarei em nada, não perguntarei nada a ninguém. E como uma múmia que desperta de um sono ancestral, decidida a cumprir uma missão, abro meus olhos e tomo meu caminho. O mesmo de todos os dias.

Esssssstação Trianonnn-Maaasp.

Comentários

PoiESis disse…
Pegarei a linha orangotango. Farei baldeação na linha papagaio-desinibido pra descer na estação Alegria, Alegrai.


“quero apenas cheiros e tapo minhas orelhas” (bonito)...“Tomo consciência do ar que adentra minhas narinas” (yoga).

Enxergar as pessoas com os olhos fechados, sentir via os outros canais de visão do nosso corpo é um exercício que dá frio na barriga de bom.


Tantos rostos. O metrô é um bom lugar p/ catalogá-los.

É muito verdade o ar denso da consolação
Gostei de: “Há infinitos braços que vão ao trabalho”

Abrir os olhos e tomar o mesmo caminho de todos os dias parece que não nos despertará, mas nos fará dormir um sono longo da labuta na qual nos apagamos, pusque fechamos os olhos de nossos sonhos em algumas das vezes em que os abrimos fisicamente.

Abração e parabéns!,
Marcus Andrade

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