Ato 1

Já a caminho do metrô, X nota haver esquecido o bilhete. Amaldiçoa os céus, repete alguns vezes a palavra merda, e como um cão com o rabo entre as pernas, volta para apanhá-lo. Após alguns passos, nota caminhando na direção contrária, na mesma direção que antes ele próprio seguia, um homem extremamente alto e magro, de cabelos longos e barba livre, pele branca e olhos claros. O homem conversava com uma mulher e, devido ao seu tamanho, olhava em direção ao chão. X ouve a palavra “Jamaica” sair de sua boca.

Ato 2

X, depois de haver encontrado seu bilhete, após ter caminhado de volta para o metrô, percorrido todas as estações que levam ao seu destino, seguido até o ponto de ônibus que será a última etapa da volta para casa, está esperando, sentado em uma mureta. Vê caminhando em sua direção um homem extremamente alto e magro, de cabelos longos e barba livre, pele branca e olhos claros. De imediato, lembra-se. O homem se senta ao seu lado. X pensa em coisas como o acaso, a mecânica desconhecida da vida, que faz com que dois estranhos acabem se cruzando, por duas vezes, em um mesmo dia. Mas o homem não se lembra de X, pois quando se cruzaram, apenas X tinha os olhos e atenção para fora de si, já que o altão contava entretido alguma história qualquer que envolvia a Jamaica. X pensa se não deveria falar com esse sujeito tão particular. E nesse exato instante, é o sujeito que o aborda.

Ato 3

O homem anuncia desde logo: “Vamos conversar enquanto o ônibus não chega”. X se afeiçoa pelo homem, e reconhece nele o bom senso; sabe que a chegada do ônibus interromperia tudo e já o deixa claro, para que os poucos minutos sejam de uma conversa tranquila, sem que X fique apreensivo, preocupando-se em olhar para o homem e ficar atento à chegada do ônibus. Mas assim mesmo X se pergunta: “será que perderei o ônibus, por ficar ouvindo esse homem?” Mas X decide não se importar e o ouve atentamente, dando atenção às palavras do gigante, e tentando compreendê-las. O homem lhe fala sobre um grande mestre. Diz que Buda, Jesus, Maomé, todos eles foram grandes mestres. E que as religiões foram criadas quando esses homens foram “empacotados”, porque sentíamos saudades deles. O sujeito de olhos claros e barbas livres fala coisas sobre luz, energia e o interior de nós mesmos. X o ouve com extrema sinceridade. Os olhos claros do homem estão sedentos de encontro. X pensa que esse homem está totalmente diante dele. X sente carinho por esse desconhecido e pensa interiormente: “Que adorável tentativa é o ser humano!”.

Ato 4

Já no ônibus - porque acabaram tomando o mesmo ônibus - a conversa prossegue. X atravessa a catraca, utilizando o bilhete que fora responsável por conhecer o homem alto. Continuam conversando, com a catraca entre ambos e o cobrador como fiel da balança. X, com o canto dos olhos, nota que o cobrador esboça uma risada maliciosa. Mas X o perdoa, pois ele desconhece toda a história anterior. O homem de pele branca diz mais coisas, afirma que X ganhou o bilhete de loteria premiado e que ele deve ir buscar o dinheiro. Quando chegam ao ponto final, ambos se despedem e saem por saídas diferentes do ônibus. O cobrador olha para X e pergunta se ele havia ganhado mesmo na loteria. E, se sim, que não se esquecesse dele, que estaria todos os dias naquela linha.

Ato 5

X volta para casa sorrindo. Consciente, como nunca, que a vida tem um sentido secreto que ele nunca conseguirá apreender e processar. E que o melhor a se fazer é, simplesmente, participar da coisa toda.

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