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Mostrando postagens de Fevereiro, 2012

Exercício – A construção do espaço pelo som

Por ser uma ladeira de paralelepípedos, a potência dos ruídos se multiplica algumas vezes. Moro no apartamento 32. Sobem aos meus ouvidos como se uma artilharia estivesse treinando disparos. Das imediações, alcançam-me os sons de arranque dos ônibus. Parecem expelir, a cada movimento, grandes quantidades de ar. Misturam-se latidos de cães que, vindos de diversas distâncias, formam uma particular sinfonia que integra o todo dos sons. Talvez se comuniquem. Ouvem-se também as vozes de transeuntes, seus passos, suas risadas. De repente, motos velozes rasgam o asfalto e produzem gritos de dor. A cada instante, o pensamento é invadido. Parece haver uma pequena guerra que se espalha por todas as partes, mas é apenas a cidade, que custa a dormir.
Sentirei uma tristeza disforme e habitante do labirinto por onde transitam as sombras de minhas recordações, que me assombram com sussurros e sugestões. Eu quereria ter mãos em meus olhos para poder agarrar os momentos. E uma caixa para metê-los dentro; deixá-los curtindo, livrando-se da gordura desnecessária, para, feito madeira seca, servirem de matéria prima ideal.