Funcionário de Consulado

O primeiro homem que me atendeu efetuou a cobrança pela renovação do passaporte. “Agora, fale com o Alexandre. Sala 7.” Atravessei uma área externa da enorme casa que abriga o Consulado. Dentro da tal sala, as mesas formam um L. Na perna mais longa, sentavam um homem e uma mulher. Na outra, quase grudado na parede, o homem que restava. Todos levantaram a cabeça e me olharam. Muito provavelmente, cada um deles executava um único tipo de serviço. Por isso a excitação que repentinamente os dominou até que “Alexandre” e duas cabeças imediatamente baixaram, a da mulher e a do homem mais velho que sentava a seu lado. Vindo do canto, percebi um grunhido quase inaudível. Era ele. Eu era o primeiro trabalho do dia.

Alexandre aparenta entre 30 e 35 anos. Não é alto nem baixo. É feio. Os cabelos pretos são encaracolados. Na parte da frente, já se percebe a entrada. Compensa-a os deixando sobrar atrás, onde pequenos cachos se formam voltados para a cabeça, como se desejassem retornar à região em que fazem falta. Não havia expressão em sua face. Antes mesmo de eu me sentar, já estendia a mão esquerda. Esperava meu passaporte, claro. É a única coisa que invariavelmente recebe das mãos das pessoas que entram na sala 7 e dizem Alexandre, como eu disse. Não me saudou. Não me recebeu sequer com um olhar. Senti-me ligeiramente desnorteado. Creio que vocês também não esperam, em quaisquer dessas situações da vida que nos metem diante de um desconhecido, que faz qualquer coisa que momentaneamente necessitamos, esse automatismo absoluto, essa aparente ausência de sinais vitais. Ao longo do atendimento, fiz duas ou três perguntas. Não me respondeu. Repetia as perguntas, olhando para os dois colegas, que, por sua vez, respondiam-me. A situação era bizarra. Mesmo com os colegas, falava baixo, muito a contragosto. Mas a culpa era minha. Certamente em outras ocasiões, divertia-se muito com aqueles dois. Seguiu sem olhar-me nos olhos durante todo o tempo. Quando percebi que havia terminado com as anotações e carimbos, perguntei se deveria deixar o passaporte antigo. Balançou a cabeça negativamente e movimentou a mão em minha direção, dizendo sem palavras que o levasse, que o levasse.

Quando sai, tive de passar uma vez mais, bem rapidamente, pelo primeiro sujeito que me atendera. Já a caminho da rua, do corredor que eu percorria, avistei o Alexandre. Tomava o primeiro café do dia e sorria muito, conversando com outro funcionário. Olhamo-nos.

Comentários

Patrícia Anette disse…
Bem bom! Bizarro como escolhemos mesmo trabalhar com coisas que odiamos.

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