Falando de cinema em 400 palavras. Crítica: Pickpocket (O batedor de carteiras, Robert Bresson, 1959)






Estranha história de amor! Sugerida em poucos instantes ao longo do filme. Confirmada apenas na última cena, para que se completasse depois, na cabeça ou nos sonhos do expectador. E não é isso que torna um filme, ou livro, em matéria viva, mais do que simples lazer que se esgota tão logo termina? No filme de Robert Bresson, há um aspirante a Raskólnikov, personagem principal do livro “Crime e Castigo”, o batedor de carteiras Michael. Sua primeira tentativa, que abre o filme, quase o atira de pronto à cadeia. É preso, mas logo liberado. Não havia nada em seus bolsos. Apenas o dinheiro surrupiado de uma senhora na confusão de uma plateia de hipódromo. No dia seguinte, vai visitar a mãe e a descobre doente, assistida por uma jovem vizinha, Jeanne. Mas não entra. Por algum motivo, decide não vê-la. Parado diante da porta, apenas entrega o dinheiro. “Você não vai entrar? Não vai lhe dar um beijo? Não, ele não vai. “Até logo,  Jeanne”.

A suspeita faz com que a polícia siga em seu em encalço ao longo de todo a história. Michael, no café que frequenta com um amigo, acaba conversando com o próprio inspetor de polícia. Revela-lhe a sua (não tão nova) teoria de que aos homens superiores não deveria haver restrições de nenhuma espécie. O primeiro sucesso o instiga a continuar e se sofisticar. Michael passa vários momentos treinando seus dedos no apertado e minúsculo cubículo em que vive. É preciso torná-los ágeis e confiantes.  Associa-se a outros batedores, e comete assaltos cada vez mais espetaculares, pela destreza que adquirem. Mas o cerco se fecha. O inspetor interessa-se cada vez mais por sua apática e intrigante figura. É seguido. Seus comparsas terminam presos. Decide sair da França e voltamos a acompanhar sua história apenas dois anos depois, quando regressa a Paris. Reencontra Jeanne, a essa altura, já mãe, mas não esposa. Reinicia os pequenos furtos no hipódromo em que tudo começara. Mas dessa vez, Michael é preso. Na prisão, recebe as visitas da única pessoa que conhecia. “Por que você veio?”. “Eu só tenho você”, responde-lhe Jeanne, que passa um tempo se vê-lo, mas envia uma carta. A criança estivera doente. Quando retorna, entre as grades, Michael beija-lhe a testa. E em nossa cabeça, continua essa estranha e bela história de amor.

Fin.

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