“Até amanhã”.

Ouvia ainda ressoar em sua cabeça a frase que acabara de ser dita pela velha caseira que os visitara. Ou já se passara algum tempo? Não estava certo. Olhou ao redor e não encontrou sua mulher. Com um pouco de esforço, podia ouvi-la movimentando-se na cama. Sim, talvez ele estivesse ali, mergulhado em seus pensamentos, há um bom tempo; suficiente para que sua mulher retornasse à leitura do romance, interrompida pela inesperada aparição. A frase pairava solitária em sua lembrança; um tênue fio que o ligava ao tempo imediatamente anterior.

Mas talvez, se se detivesse um pouco mais na única frase que permanecera gravada em sua memória – dita em tom seco e definitivo e que o marcara como ferro quente em boi - poderia recobrar o que acontecera. Não que se interessasse pelo que ocorrera, que decerto não possuiria nada de especial. Constantemente, via-se perdido no tempo, perdido entre o tempo: de uma conversa e outra, de um episódio e outro. Sentia-se sempre fora da trama que envolvia sua vida e a daqueles que se ligavam a ela. Os esquecimentos, as memórias que se desvinculavam do tempo e reapareciam aqui e ali, vergonhosamente misturadas e mutiladas. Os momentos em que se perdia completamente, não recordando a sequência de atos que o levaram até onde estava. Em tais ocasiões, propusera-se exercitar-se, na tentativa de  recuperar o que sucedera no espaço e tempo. Imaginava com essa prática recuperar o domínio da própria consciência e superar o estado de letargia. Naquele exato instante sentia-se assim: como se tivesse despertado naquela casa de praia. Como se pisasse no mundo pela primeira vez e trouxesse consigo uma única frase.


O “Até amanhã”, inicialmente insípido e desbotado, que ainda não lhe dava nenhuma certeza efetiva de que fora dito por outra pessoa e que não passava apenas de uma invenção da própria mente, ou algo dito por alguém há muito tempo atrás, aos poucos ganhava corpo e, realizando um caminho inverso, reconstruía a boca, depois a cabeça, depois todo o corpo da pessoa que a dissera. “Até amanhã”, “Até amanhã”, “Até amanhã”, “Até amanhã”, “Até amanhã”, “Até amanhã”, “Até amanhã”. Sim, a velha caseira estivera ali. Um novo ser humano que via pela primeira vez. Ainda não conseguia lembrar-se do teor da conversa com perfeição; mesmo quando se esforçava e obtinha algum êxito, nunca era suficiente para recuperar toda a sequência dos diálogos. Tinha diante de si, até esse momento, o timbre de sua voz, que já se tornara inconfundível e mais vivo do que nunca. Concentrou-se em reconstruir a imagem da velha e ter a certeza de que, de fato, algo se passara. Além do mais, seria prematuro preocupar-se com os diálogos, pois o caminho que se oferecia a ele era o das imagens. Ela era pequena e roliça. Sim, fora ele quem abrira a porte para aquele ser que tinha quase a metade de seu tamanho. “Sua esposa está aí?”. Lembrava-se dessa frase, pois lhe viera à mente a resposta que não lhe dera, de que eram apenas namorados. A velha levava preso os longos e grisalhos cabelos. Essa lembrança retornou a ele pelo estômago, pois repetira-se a sensação de repulsa que sentira por aquela crina repleta de grampos que alcançava quase os pés da pequena mulher. O que vestia? Muito provavelmente uma dessas longas saias que essas velhas carolas de cabelos até o chão normalmente usam. Não se lembrava de ter visto nenhum trecho da perna, o que normalmente, nos velhos, lhe chama a atenção pelo estado da veias... sim, o mais provável era que estivesse vestida dessa maneira e decidiu seguir adiante. O agasalho de lã caramelo lhe voltou à cabeça com certeza. “Como vestia-se assim na praia?”, lembrou-se de ter perguntado a si mesmo. Mas viajavam fora de época e não fazia tanto calor. Na verdade, não havia tanta estranheza aí. Sim, com toda a certeza, tombando a cabeça ligeiramente para a direita, a primeira coisa que emanara de sua cara redonda e enrugada foi: “Sua esposa está aí?”.

Quando a porta se fechou, o rebentar das ondas retomou o controle no universo dos sons, reforçando a sensação de que nada havia acontecido. Eram as ondas que lhe falavam novamente. Embalado por essa música ininterrupta e uniforme, sentia-se capaz de passar horas entregue ao nada, deixando-se comandar pelos olhos que passeavam livremente em busca de qualquer alvo em movimento. Estático, ele observava a madeira e se deixava dominar pelo som que se produzia a uma dezena de passos de onde estavam. Era um som potente e absoluto. Havia contado horas antes, quando se banhara pela primeira vez naquele mar que parecia mais um estacionamento de um sem número de pequenas embarcações dos pescadores que ali moravam. Na frente da casa, ligeiramente elevada em relação à praia, havia um pequeno jardim de areia e uma árvore grande com folhas largas, que fazia sombra para uma cadeira. Quando, chegando pelo mar, o pescador que os levava indicou que aquela era a casa que haviam alugado, pensou que sentiria prazer quando pudesse estar sentado ali, apenas sentindo o tempo passar e passando com ele.

Mas a velha caseira efetivamente havia estado ali. Sim, agora tinha certeza. Trouxera mantas e alguns objetos de pano que fazia para vender. Ao lembrar-se disso, outros detalhes retornaram à sua cabeça.
Também viera para defender-se da suposta acusação de que a casa estava suja. Sua namorada havia conversado por telefone com a dona da casa sobre alguns problemas que encontraram. A velha pediu para ver a goteira, perguntou onde exatamente encontrara sujeira. Ignorou completamente a presença dele, como se aquela espécie de assunto exigisse que se entendesse com uma outra mulher. Secretamente, agradecia a isso, pois não saberia o que dizer. Assistiu àquela conversa como se entre ele e as duas mulheres houvesse uma superfície de vidro que anulasse o som e borrasse os corpos. Mas será que, de fato, não ouvira nada daquela conversa? Alguém diria ser impossível, já que estava a dois, no máximo três, passos de ambas. Ou será que, o que agora imaginava ter ouvido, na verdade lhe fora contado depois por sua mulher, na pequena recapitulação dos fatos que, como de costume, certamente o fizera? Também não estava certo disso. Mas de algum lugar surgiam trechos da conversa, pequenas sequências.
Ela dissera, por exemplo, que não adiantaria procurar sujeira pela casa, porque ela própria já passara uma vassoura. Não havia mais nada por limpar. Tais palavras pareciam dizer à velha o mesmo que o rebentar das ondas ou os latidos de um cachorro, pois, assim mesmo, percorreu todos os aposentos da casa e, da sala, ambos a ouviam dizer “Aqui esta limpo. Onde vocês viram sujeira? Aqui esta limpo. Onde...”. Sim, lembrava-se agora que, em determinado momento, viu-se sozinho na sala com sua mulher, que o olhava ao mesmo tempo assustada e incomodada com a absurda situação. Ele não dissera nada, e com os ombros e cara, sugerira que o melhor era simplesmente esperar, que ela não demoraria muito a ir embora.

Mas a verdade é que não haviam reclamado da maneira contra a qual parecia se defender. Quando sua mulher percebera os inconvenientes, disse que ligaria para a proprietária do imóvel. Ele concordou, porque concordar era a coisa mais simples a se fazer. Ele mesmo não tomaria a resolução de efetuar a ligação e ter esse tipo de conversa. Embora, era preciso admitir, ficaria satisfeito se a questão do barulho fosse resolvida. Contaram das goteiras e da surpresa de encontrar como vizinho o único bar da praia. Talvez mudar de casa lhes caísse bem. O objetivo da viagem era o silêncio que os freqüentadores do bar não lhes permitiam. Haviam dito isso quando fecharam o aluguel da casa. Queriam que a proprietária os compreendesse e, quem sabe, até mesmo os ajudasse a encontrar outro lugar mais adequado àquilo que buscavam. Mas a dona da casa preocupara-se apenas com defender-se e dissera que todas as outras casas da praia estariam igualmente sujas. Não era alta temporada e todas permaneciam fechadas. Evidentemente, aferrara-se à questão da limpeza. Não havia como defender-se do bar e, agindo dessa maneira, eximia-se de sua própria culpa e toda a responsabilidade recaía nas costas já arcadas da velha, para qual de nada havia adiantado a explicação de que não haviam se queixado dela. Além do mais, o que mais os incomodara era o permanente ruído do bar. E não a sujeira ou as goteiras. Mas a velha, de fato, não a compreendia.  Provavelmente sua patroa não mencionara a questão do bar e apenas lhe dissera que os hóspedes haviam reclamado da sujeira. Talvez tenha se aproveitado da situação para reclamar dos serviços que lhe eram prestados e, assim, adiar um pedido de aumento.

Agora, ele se via uma vez mais diante daquele velha que, como se estivesse diante do muro das lamentações, repetira (por quanto tempo? quantas vezes?) as mesmas duas frases. “Aqui esta limpo. Onde vocês viram sujeira?”. Sua mulher já não respondia e o olhava cada vez mais intrigada, quase assustada com esse estranho automatismo. Parecia perguntar-lhe se ela não iria parar nunca mais, pedia-lhe que fizesse alguma coisa. Mas ele não fez. Ao menos, não se lembra de ter feito ou dito qualquer coisa. Após algum tempo, talvez finalmente notando que ouvia apenas a própria voz, emendou um assunto no outro e ofereceu os objetos de pano que vendia. Talvez o ato de falar lhe fosse muito custoso; as palavras eram sempre cuspidas com rapidez, como se fossem indesejadas. Por cortesia, sua mulher olhou as peças, fez algumas perguntas, mas disse, ao final, que não iria comprar nada. Ainda assim, sem olhar para nenhum deles dois, repetiu duas ou três vezes se não queríamos comprar nada, se não queríamos comprar nada, porque era baratinho, um dinheiro que não nos iria fazer falta, e, por isso, poderíamos muito bem comprar qualquer coisinha apenas para ajudá-la. Nada foi comprado, mas não se lembrava como sua mulher se safara dessa, como se dera a passagem da velha do centro da casa até a porta. Do mesmo modo, não estava certo se se despedira ainda em seu interior ou já na soleira da porta. Se dissera que “Até amanhã” em movimento ou se havia se deslocado até à porta e, voltando-se uma última vez ao interior da casa, despejara seu “Até amanhã”.


Não existira nenhum real motivo para discussão. Mas já existiam envolvidos e posições sendo defendidas. A velha que fora embora arrastando as sandálias no chão de cimento liso, estivera ali para defender a sua. Assim era a vida e isso o cansava. Na cidade em que viviam, muitos quilômetros dali, era exatamente a mesma coisa: um permanente campo de batalha, ora mais dissimulado, ora completamente explícito. Uma tomada de posição constante frente a questões absurdas e conflitos sem qualquer substância. O que de essencial havia em seu trabalho, nos processos que o obrigavam a falar com juízes, promotores e infinitas outras categorias de funcionários que faziam girar, como ele também fazia, a grande roda da burocracia? Qual era o sentido da discussão que tivera, poucos dias antes da viagem, com o mecânico que inventara a troca de uma peça, apenas para encarecer o conserto do carro? Nada, não havia nada. Mas essas irrealidades preenchiam quase que todo o tempo dos dias, dos meses, dos anos. O que mais o aturdia, no entanto, não eram tanto as irrealidades, e a necessidade de que fossem inventadas, mas a maneira como os seres humanos se agarravam a elas, consideravam-nas fundamentais. Via-se, frequentemente, exaurido com as obrigações e situações diárias. De uma hora para outra, não compreendia mais as palavras que lhe eram dita – e mesmo as palavras que ele próprio pronunciava. As leis e regras do mundo pareciam pesadas demais, incompreensíveis demais. As pessoas lhe pareciam as montanhas que vemos durante um passeio no campo. Parecem estar bem próximas, mas por mais que andemos e andemos, nunca chegamos a alcança-las.
Seria isso o sintoma de uma ignorância pura e simples, a sua ignorância? Ou talvez não compreendesse, porque, antes, não compartilhava os mesmos propósitos básicos que pareciam ser evidentes para a maioria dos outros?
Não se incomodava tanto com a necessidade da encenação, mas sim com o desconhecimento que parecia acometer a todos: o de que estávamos sobre um palco. Apenas esse desconhecimento poderia justificar a exagerada importância que atribuíamos a nós mesmos, ao nosso papel nessa absurda comédia. Só assim para entender como chegávamos frequentemente ao ponto de brigar, de nos fustigar reciprocamente, de criar tantas armadilhas para nossas próprias vidas. A vida é movimento, mas também necessita ser silêncio. Se nos transformamos apenas em movimento, nos transformamos em simples maquinaria e deixamos de ser humanos.

Sentia-se cansado e queria desfazer-se de todos esses pensamentos imprecisos. De repente, deu-se conta de que finalmente poderia fazer a única coisa que despertara seu interesse desde que haviam pisado os pés naquele lugar. O dia se aproximava de seu fim, mas a luz do sol ainda se esparramava gentilmente, como um lençol dourado que repousava sobre as coisas. Unidos no silêncio, o mar, a areia e o céu pareciam pintados de uma mesma cor. Da entrada da casa, assistia. Seus olhos pareciam finalmente abertos. Sentia-se consciente e perfeito. Iria sentar-se na cadeira agora.

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