Como poderei falar de você, menino?

         Já o havia visto antes, quando estivera na igreja próxima de minha casa, para fazer uma pergunta ao padre. Andava refletindo sobre estas palavras de Mateus: “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.”

         Imaginava que fosse comum que na Igreja se recebessem pessoas que desejassem conversar com o padre, tirar dúvidas. Mas o meu pedido foi recebido com surpresa. Uma surpresa alegre, devo dizer, pois as senhoras que me receberam demonstraram vivo entusiasmo e me arrastando pelos braços saíram à procura do padre.

         O menino vinha sempre atrás. Não era menino pelo tamanho que tinha e a idade que certamente deveria possuir. Mas tal era a inocência de seu olhar, a aparente ausência de pensamentos por detrás de sua cara, que me dominou completamente a atenção, não conseguia tirar os olhos dele. Imaginei que sofresse de algum atraso mental e que muito provavelmente tivesse sido acolhido pela Igreja.

         Ele andava lentamente, os braços levantados na altura do peito, as mãos quase se tocando. Em um momento em que me vi sozinho, aguardando o padre chegar, aproximou-me de mim e sussurou: “Você virá à missa de domingo?”. Respondi-lhe sorrindo que não sabia e o olhei por alguns instantes. Não nos dissemos mais nada e o senhor de cabelos brancos aproximou-me de mim e convidou-me a segui-lo.

         Não falarei aqui sobre a conversa que tive com o padre, mas sobre o Leandro, cujo nome descobri muito tempo depois, quando finalmente as circunstâncias me levaram à Igreja para assistir à missa.

         Se não me engano, era uma quinta-feira. Saíra cedo do trabalho e, por isso, descia do ônibus, perto de casa, por volta das sete horas da noite. Pensei que poderia ir à missa e assim o decidi. Sentei para tomar um café e esperar que batesse oito horas.

         Acabei antecipando-me e sentei-me na última fileira da igreja vinte ou trinta minutos antes do início da celebração. Fez-me bem estar dentro da Igreja ainda vazia. Tenho de admitir que isso tranqüilizou-me a alma que, naquele dia, vinha como um mar revolto. Logo avistei o Leandro e minha antiga suspeita se confirmou. Muito provavelmente, vivia na Igreja. Certamente, não se lembrou de mim e se veio ao meu encontro foi por uma renovada e constante vontade que sempre tem de se aproximar das pessoas.

         Estava longe. Havia uma saída lateral, para o interior da Igreja, ao lado do púlpito. Fora lá, na vez anterior, que eu conversara com o padre. Era de lá que veio em minha direção, no começo a passos rápidos, e à medida que se aproximava, diminuindo o ritmo, mas abrindo o sorriso. Sorri-lhe de volta e ao vê-lo estático diante de mim, perguntei, para puxar papo, se haveria missa. Respondeu-me que naquele dia a missa seria mais tarde, apenas às dez horas. Achei estranho, não acreditei muito, e pensei que se equivocava. Disse que, se fosse assim, não poderia ficar, mas que, de qualquer maneira, passaria mais um tempo por ali, pois me sentia bem. Deu-me mais um de seus sorrisos, meneou a cabeça e pôs-se a andar.

         Quando disse que estava sozinho é porque não considerei a presença de uma borboleta que dançava ao meu redor. Passou raso por meu nariz e percebi sua presença. Com os olhos, divertiu-me seguir seu caminho. Contorcia-me na bancada em que estava sentado, para não perdê-la de vista, até que estacionou no chão, bem atrás de mim. Nesse instante, percebi Leandro voltando.

         Começara a sentir algo estranho em relação a ele. Uma dose de medo, um frio que me gelava o corpo toda vez que se aproximava. Senti que me observava e isso me deixou descoberto. Voltou dizendo que se enganara e que a missa começaria oito horas. Enquanto dava-me a informação, bem baixinho, tocou-me com as duas mãos. Abaixou-se um pouco e, mais do que simplesmente tocar-me, repousou as duas mãos nos meus ombros. Eu já havia agradecido, mas ele continuava ali. Olhava-me ternamente e suas mãos não se mexiam.

         Sobressaltei-me e mudei meu corpo de posição, para forçá-lo a igualmente se movimentar. Como que retirado de um transe, imediatamente botou a coluna de pé e começou a andar. Dava voltas ininterruptas por todo o interior da Igreja.

          Por que me senti dessa maneira? Parece-me certo que Leandro queria carinho, afeto. E em sua inocência absoluta demonstrava-me como o contato físico nos é importante, nos aquece. Em algum momento da conversa, respondera-me que tinha 23 anos. Refleti que, dada sua condição, muito provavelmente não conhecera uma mulher. 

         Mas logo deixei de preocupar-me com tentar compreender por que Leandro parecia tanto ansiar por um contato físico comigo. Passei a pensar no porquê de meu sobressalto. Por que me era tão difícil aceitar o amor do Leandro? Por que me gelava a espinha o medo que me tocasse novamente?

         O amor, por meio dele, me alcançava de uma maneira pura. Era plena vontade de aproximação, de contato. Não era o toque de uma mulher amada, a que desejo. Não era o abraço de um amigo, a quem igualmente desejo. Encontrou-me o amor quando não o queria, ou esperava. Principalmente, encontrou-me o amor quando este não se confundia, em meu interior, com o desejo.

         Esse pensamento deixou-me profundamente reflexivo. Será que estava pronto para receber o amor? Será que estou pronto para amar de uma maneira que supere o mero desejo? Ainda não tenho a resposta, mas serei eternamente grato ao Leandro que com sua sabedoria presenteou-me com tais reflexões, que poderão eventualmente conduzir-me a algum lugar.



Ao escrever esse texto, fui a Bíblia confirmar a citação que fiz de Mateus. Li todo o capítulo 5 e curiosamente, deparei-me com dois versículos que me fizeram pensar em própria minha reflexão final.

46. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?

47. E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?

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