Cap. 74 - O Jogo da Amarelinha


O.K. Mas é preciso partir da premissa de que somente aquele que nunca ler qualquer das notas de Morelli, compreenderá (sentirá?) verdadeiramente seu inconformista. Haveria que coincidir com o esse sujeito sem o saber. Isso, para mim, está claro. Aquele que o lê, infalivelmente ocupa as zonas intermediárias do espírito humano, justamente das quais ele, o inconformista morelliano, desdenha. E é justamente este o pacto (Julio, em outro momento, em outro livro, chamará de biombo colocado entre), a perversa aliança que se estabelece entre Morelli (Cortázar ou qualquer outro) e seus leitores (eu ou vocês): ambos se odeiam, porém se necessitam para que existam. Superando-se todas essas considerações que, se insistidas, me farão parar por aqui mesmo e também dar de ombros (tal qual o inconformista), me pergunto avidamente: para quem ele (eu, eu, eu, eu e eu!) escreve? Sim, porque depois de ler todas as notas, terminei com a impressão de que do inconformista morelliano (do próprio Morelli e, em última instância, também de Julio) poderia se esperar tudo, exceto que escrevesse, que estivesse preocupado em redigir suas notas e ser lido justamente por aqueles pelos quais nutre verdadeiro...porque já concordamos que são justamente aqueles desdentados que compraremos seus livros. Mas ele escreve, escreveu, e eu o li, e continuamos lendo.

Não sei se tenho algo mais a dizer sobre esse capítulo. Compreendo que ele tenha outras facetas - como em tudo de Júlio, é múltiplo - mas a pergunta que me fiz dominou-me por completo: li, reli, treli, sempre na busca, em algum canto, derramado em alguma frase, o porquê desse inconformista, em que tudo aponta para o mais absoluto silêncio, escrever, de fazer uso da voz sem som que é a escrita. Não encontrei; e continuaremos escrevendo.

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