pensamentos desordenados 1

Voltando para casa, sentia-me tão próximo das coisas. Às vezes, me acontece de sentir-me estranhamente próximo de tudo. Olhava para trás e era como se as casas me estivessem perseguindo. Mesmo os prédios mais distantes pareciam ao alcance de meus dedos. Inferno; pensei em tantas coisas enquanto voltava caminhando, que me imaginava enchendo páginas e páginas. Para a sorte do branco, praticamente todos os meus pensamentos já se escaparam, somaram-se à grande nuvem do esquecimento. Talvez o medo que senti de minhas perseguidoras tenha me infundido um temor que apagou tudo.

Comprei um livro hoje e já nas primeiras páginas, uma frase que me fez fechá-lo de medo: “Morte é isto: esquecimento em olhos que olham”. Eu já passei por isso, mas só agora, lendo essas palavras, me dei conta. Se duvidar, é essa espécie de morte que sinto quando ela me olha, mas que se confunde com uma cãibra no estômago. Porque eu sei que ela já não se lembra de mim, embora me chame vez ou outra. Mas se eu mesmo já me esqueci de tudo, tudo, tudo o que pensava. E é melhor colocar a coisa nos eixos: não é que eu pense e depois esqueça. Pior, vivo em um completo esquecimento e, às vezes, para disfarçar, penso em uma coisa ou outra. Compreendem a diferença? Sou capaz de passar horas fazendo absolutamente nada, olhando alguma das paredes de casa, deitado na cama, apenas mecanicamente alternando posições e lados. Meu estado natural é o nada, e não o contrário - o nada não é a exceção, entendam de uma vez por todas! Por isso que quando tento refazer mentalmente o trajeto que acabei de percorrer até minha casa, é apenas o ruído ensurdecedor da bola jogada contra a parede, da bola contra a parede, da bola-parede, bola-parede, que sinto tomar-me absolutamente. Mas o menino apareceu apenas bem no fim de meu caminho, quando já podia ver meu prédio se erguendo. Não obstante, é como se fosse a única lembrança possível, que tivesse me acompanhado desde que baixei do metrô, desde que desci no mundo. Não há mais nada no passado, além desse menino e sua bola, batendo-a repetidamente, e sem me perceber passando ao seu lado, contra uma parede branca e desgastada. Só que o ruído já se apaga também e novamente estou sozinho, metido nesse lodaçal chamado presente.

Comentários

Tina Bini disse…
No nada que a gente se encontra. Talvez a pessoa do texto já tenha se encontrado tantas vezes, e não tenha aceito o que sempre encontrou, que preferiu continuar no nada. Repito e friso: talvez.

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