Suicídio no metrô


A estação era daquelas em que os trens que fazem os sentidos opostos da linha correm paralelamente, de modo que se é possível visualizar a plataforma contrária bem diante de si. Separadas por dois corredores de trilhos, pessoas que se dirigem a galáxias distintas (leste-oeste, Vila Madalena-Paraíso) e que nunca se cruzarão em circunstâncias normais do tipo: Marina e Paulo se conheceram na sala 2-A da escola de inglês em que estudam, quase ao lado da casa de ambos, e de tantos cafés no intervalo, um dia se falaram. Não, para as do metrô há apenas o contato de uma coincidência de horários. Uma coincidência, na maioria das vezes, sem a menor chance de vencer a pressa da garota que notou o olhar do rapaz (que notou o olhar da garota) andando na contramão do túnel que ambos percorriam. Tudo acontece em questão de segundos, ainda que segundos que se colam às horas que vêm depois, porque se não como explicar, três dias depois, lembrar-se dela, enquanto calmamente se mistura o açúcar no café e tin-tin-tin a ver se sai da memória?

Claro que para as que tomarem o mesmo trem há um pouco mais, maiores chances por assim dizer: ocupar a mesma plataforma, talvez entrar no mesmo vagão e, não havendo muitos lugares disponíveis, quem sabe dividir um assento. Isso tudo, claro, se antes, se avolumarem em um dos mesmos pontos demarcados por um traço no chão, indicando que ali estará uma das portas que em breve se abrirão. Porque, ah rapaz, há que se ter uma boa e sorrateira desculpa para violar a escolha inicialmente feita, para esgueirar-se até a outra extremidade da plataforma, onde está aquela lourinha, que você só viu depois, com uma bonita bolsa de renda e a independência de um olhar que parece prescindir daquilo tudo que vê.

Para os que têm apenas a possibilidade do olhar, apartados por corredores pelos quais atravessavam dois frenéticos tubarões metalizados, a coisa é bem diferente. Não há nada que os obrigue à prudência que reina entre os desconhecidos postos lado a lado, sujeitos, assim mesmo, a repentina possibilidade de um esbarrão, de um concordar quanto à indelicadeza do jovem punk com cara de poucos amigos que, quando a porta se abriu, parece ter feito questão de empurrar a todos e não olhar para ninguém, mas que abusado, não é, sim, é sim, claro que é. No entanto, talvez por isso mesmo, pela aparente impossibilidade de qualquer contato físico, de que algo venha a acontecer, tenham mais liberdade, podendo olhar uns para os outros, insistentemente fitar.

Artur e Marília não tiveram a mesma sorte de Marina e Paulo (hoje já casados, com filhos, agradecidos pelo que julgam ter sido o milagre que os fez se conhecerem: naquele dia, ter faltado açúcar na mesa de Paulo, e Marina, logo ao lado, ter notado a angústia do rapaz que girava a cabeça obstinadamente ao redor de todo salão, buscando em todas as mesas a colher e meia, às vezes duas, para seu café...). Entre Marília e Artur há muito mais do que mesas, cadeiras e alguns colegas de sala. Há toda a extensão da linha verde. Não sei quantos quilômetros (certamente não mais que vinte, mas ainda que menos, ainda que dez, ainda que cinco) adquirem a amplitude de constelações com seus próprios supermercados, farmácias, lavanderias, etc., etc. Nem mesmo terão a possibilidade de dividir um vagão, Artur não terá sequer o tempo de duas, ou três, vai saber quantas estações, para dirigir-lhe um sorriso. Entre eles existe apenas o olhar que os reúne provisoriamente, até que chegue o trem de um ou do outro; até que Artur desça novamente na estação Vila Madalena, extremo oeste da linha verde. De volta à rua, haverá a velha felicidade, que sempre o invade sutilmente, por poder viver em um lugar ainda não totalmente tomado pelas grandiosas construções tão presentes em outras partes da cidade. Antes, terá subido lentamente as escadas, adiando ao máximo seu retorno ao mundo. Quando por fim pisar na rua, free. Comprará o pão, o leite, os frios; nunca leva nada além disso para sua casa. E até que Marília esteja mais uma vez em sua casa no Paraíso. Chame alto, como sempre, por Beto, seu gato preto, que não aparecerá; e Marília que ligará o som, e Beto, Beto (que não aparecerá), e virá o chá, enquanto ainda Beto, enquanto a água ainda esquenta (não e não, e ela sabe disso, ambos sabem). Finalmente no sofá, o gato surgirá sabe-se lá de onde, vindo pelo encosto, roçando o pescoço da dona, ah, Beto, onde estava, seu impostor?

Apenas o olhar e porque ele a viu e insistiu. Instalado na espera, ajeitada a jaqueta, chegado o momento do ligeiro look around, notou-a na plataforma do outro lado. Ela estava fixada ao chão pelo olhar, como que evitando obstinadamente qualquer coisa além da espera. Estaria lá desde antes de mim? Será que me viu chegando, será que notou quando eu a olhei e será que então...? Nunca se saberão tais coisas, o que não evita as muitas possíveis conjecturas. O importante é que, no ritual de ajeitar uma franja, teimosamente obedecendo à gravidade e se derramando em direção ao chão, os olhos se entrecruzaram. Marília pareceu pega de surpresa, voltando-se apressadamente ao chão, obviamente para poder pensar-sobre. Disso Artur tirou que ela o via pela primeira vez, porque, se já soubesse de tudo, não teria se sobressaltado daquele jeito, certamente já teria um plano traçado. A questão agora era só uma: se ela o olharia novamente, se se decidiria pelo sim (o que não seria nada demais, justamente pela aparente impossibilidade de qualquer coisa: corredores e tubarões). Foi então que a cabeça da garota se levantou novamente, cruzando a plataforma que ocupava de ponta a ponta, passando por ele sem vê-lo, até que o olhar retornou, estacionando-se finalmente no de Artur, que achou graça.

Porque concluiu que Marília decidira dar-lhe a chance de dizer o que queria, talvez até o testasse, talvez estivesse testando aquele olhar insistente. Artur percebeu. Com a cabeça ligeiramente inclinada, começou dizendo que queria descobrir o livro ela levava em sua mão. Ela soube e fez que voltava a lê-lo, só para abri-lo, apenas para que Artur visse a capa. Drummond, sorriu aprovando a escolha. Depois, passou a margear as bordas de Marília, mostrando que havia gostado tanto da simplicidade do conjunto Marília, da idéia que esta mostrava de si mesma para o mundo: uma simples calça, uma simples camiseta; tudo em conformidade com a terna gravidade do olhar que ele já conhecia tão bem. A garota se deixou galopar pelos olhos ávidos de Artur que, depois de enviados os sinais, viu que Marília o esperava armada em sorriso, tendo notado tudo o quê passava por aquela invisível ponte que, em tão breve, seria desfeita, desconstruída definitivamente.

Talvez no mesmo momento os dois tenham se dado conta do ínfimo prazo de validade daquela gostosa brincadeira que haviam jogado, e uma névoa pesada e melancólica os cobriu. A imparcial luz branca que iluminava o túnel do metrô, pareceu a Artur uma inimiga sombria e invencível, a culpada pela necessidade do retorno de ambos às suas casas, a culpada por Marília não ser sua vizinha, ou colega de classe, ou a filha de um amigo de seu pai, ou ou. Olhavam-se pesada e tristemente. Marília parecia já antecipar a despedida, evasivamente balançando a cabeça-pêndulo, checando a bolsa, o livro, retornando ao seu corpo e à simples espera; talvez para que não doesse tanto, para que não lhes fosse roubada até mesmo a possibilidade do adeus, para que ele soubesse que ela se despedia. Artur sabia que se algo pudesse ser feito, caberia a ele (onde é que já se viu uma garota correr tanto risco, sujar-se com a graxa do trilho, ou perder um talho da calça no percurso entre metais e concreto).

Sentiu o vento forte e cortante que gostava tanto de receber na cara, como um tapa que lhe agradava levar, mas que daquela vez anunciava o fim, a chegada inadiável e implacável. Imediatamente, pulou nos trilhos. Teve tempo de dar-se conta de que vivia algo imaginado tantas vezes como uma mera vontade injustificada, mas que daquela vez tinha um propósito, uma razão. Tomado da mais absoluta concentração, avançou e, enquanto escalava a baixa mureta de concreto que havia entre as linhas, buscou Marília, visivelmente sobressaltada com aquilo tudo, sofrendo a excitação e os palpitamentos que, na realidade, cabiam a ele. Como se estivesse atravessando uma simples rua, Artur olhou (para os dois lados, imagine só) para certificar-se se também o trem de Marília se aproximava, mas não, para sua sorte não foi o caso. Calmamente, pôs-se a percorrer o trecho final. Marília havia recuado, ao mesmo tempo assustada e ao mesmo tempo dando espaço para que Artur tivesse por onde subir.

Nesse meio tempo, todos haviam notado o rapaz que se havia atirado aos trilhos do metrô. Uma velha senhora correra em direção a um dos guardas dizendo que havia alguém querendo se matar, um pobre menino, que pecado. O oficial, por sua vez, fazendo uso de seu rádio transmissor, comunicou os guardas do outro lado, que já corriam desesperadamente, ali, ali, ele vem por ali, para tentar impedir o suicida e evitar imperdoáveis engarrafamentos subterrâneos. Artur, alheio a tudo isso, desesperou-se porque já não via mais Marília, encoberta por uma aglomeração de guardas e alguns curiosos que se juntavam sedentos por captar todos os detalhes que seriam contados nas refeições de diversas casas àquela noite. Mal precisou esforçar-se para subir porque tão logo se aproximou da beirada da plataforma foi agarrado por diversos braços que o puxaram freneticamente. Foi imobilizado e três guardas o arrastavam violentamente à sala de administração, para o interrogatório, que seria seguido por alguma providência. Seus gritos foram em vão. Tentava argumentar, gesticular, procurava desesperadamente por Marília para poder explicar-lhes (Perguntem a ela! Perguntem a ela! Nós apenas íamos...).

Valha, por essa ele não esperava. Quando se pensa que o jogo está ganho, há sempre uma velha e um guarda cumprindo suas funções. Artur ainda tentava desvencilhar-se, mas era impossível. Continuou buscando Marília com seus olhos que pareciam peixes ensandecidos percorrendo os estreitos limites do campo ocular. Quando por fim a encontrou, a garota estava acuada, abrigada em uma parede. Somente ele sabia o desespero silencioso que havia naqueles braços que comprimiam contra si o livro de poesias. Para surpresa dos seguranças, abruptamente o rapaz parou de debater-se. Olhava fixamente um ponto perdido; coisas de suicida, pensaram. Somente Marília sabia que não.

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