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Mostrando postagens de 2010

Terceira Elegia

terceira elegia: http://valentinadecrepax.multiply.com/reviews/item/20


Cantamos a amada, antes de que efetivamente apareça? Cantamos a amada, enquanto ainda dançamos apenas ao som da Volúpia?;
Amor: sentimento universal; Homem: terreno que pode permitir o florescimento desse sentimento? O amor abranda a Volúpia. Há no amor a possibilidade de nos tornarmos humanos. O amor nos dá chance de nos tornarmos dignos: enxergamos a beleza das estrelhas em um único rosto humano;
Toda juventude atrasa o implacável contato com a escuridão? Todo o amor nos preserva de nossas inevitáveis desventuras individuais? Permaneçamos jovens e apaixonados, Rilke? A razão atinge a maturidade quando decide aferrar-se amor?;

Amar é uma grande decisão. Amar é estar em contato com o mundo por meio de um único ser. Fechamos, de uma vez só, as infinitas portas de um infinito corredor (insuportável peso para as costas humanas!) e temos a chance de, finalmente, caminhar pelos bosques interiores;
E por tais bosques não enco…

Segunda Elegia

lida em um dia de sol

link para a Segunda Elegia: http://valentinadecrepax.multiply.com/reviews/item/18

Nos tempos remotos, os Anjos acompanhavam os homens em suas viagens. O que nos restam desses tempos? Os homens deixam para o futuro lembranças depuradas e limadas. Que sabemos de Tobias além daquilo que o próprio Tobias quis que soubéssemos dele?;
Sentimo-nos quando nos dissipamos, quando desvanecemos. Mais do que nunca, é a dor que confirma a vida, e a imperfeição. Porque somos imperfeitos. Não estamos nas coisas - tentativa desesperada - mas são as coisas que, em microscópica medida, entram em contato conosco;
"Estará o mundo impregnado de nós, pois que nele nos perdemos?" - Sim, penso que sim. Ocupamos freneticamente todos os espaços do mundo, para que não sobre nenhum, pois no silêncio de uma única árvore, as almas perdidas sentem o peso de todo um deserto;
"Às vezes minhas mãos se reconhecem ou meu rosto gasto nelas tenta se abrigar. Isto me dá uma certa consciência …

Jantar

Silêncio na mesa. Pessoas importantes. Há um homem de sorriso plástico, que olha para os lados e diz o nome de todos. Ele é o anfitrião. Eu, um convidado acidental. Alguém sussura:

- Ele é um homem de visão.

e eu respondo:

- Gosto de Ray Charles.

Primeira Elegia

sob o marcador intitulado "Rilke", trarei pequenas considerações (dúvidas) construídas na leitura do livro "Elegias de Duíno". o desejo é que os amigos deste blog ajudem na compreensão do poeta. evidentemente, a leitura do livro em questão permitiria a "visualização" dos rabiscos abaixo no corpo das elegias e, portanto, a emissão de uma opinião que as avaliasse em conjunto, contribuindo assim para o meu (nosso) entendimento das elegias. de qualquer maneira, parece-me que a familiaridade com qualquer outra outra obra do Rilke ou a sensibilidade de cada um permitirá ao interessado a manifestação de sua própria opinião. em relação às minhas, antes de as castigarem, lembrem-se que aqui estou pedindo ajuda.

tentei encontrar eventual cópia do livro que estivesse on line, porém não a encontrei. segue o link com as referências do livro:

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=595286&sid=01875724512112793561971874&k5=1628…

poema 35 ou poema pronominal ou mais um sobre o amor, essa coisa...

Te amei

como nunca amei alguém

como nunca amarei ninguém

como nunca ninguém amou alguém

como nunca

poema 34

Você passou pela minha vida
atravessando o outro lado da avenida

Fiquei sobressaltado:
seria a felicidade desfilando logo ao lado?

Não hesitei:
Bebi a breja de um só trago,
levantei apressado
derrubei um pingo na mesa ao lado
mas me ajeitei, ainda meio desajeitado

De pé, procurei você pelos lados
Vi um restinho do seu rabo de cavalo
azul, quase dourado
e disparei tresloucado

Corri, corri, corri, mas se chorei ou se sorri
o importante é que emoções eu vivi

poema 33

Fiz de minhas dores
minhas irmãs

Desfiz-me de meus amores
em plena manhã

Converti-me em caverna glacial
,escultura superficial
,solilóquios sem igual
,solitude radical

Au-Au-Au...
...é meu cachorro latindo ali fora aqui dentro

poema 32

Por trás de cada coisa bela
existiu um homem rangendo os dentes

Por trás de cada coisa bela
existiu um homem contando moedas

Por trás de cada coisa bela
existiu um homem destratando outro homem


Por detrás de cada coisa bela
sempre habita o feio

azul te quero amarelo

Imagem

poema 31

O amor
com o tempo
cede ao julgamento

Isso nos dizem o príncipe da Dinamarca
e o mineiro de Itabira...


Será verdade que o sangue nos abandona
o coração
antes mesmo de regressar das veias
à terra?

Quero ser poeira de estrela.

Quero ver coisas acontecendo. Associações inusitadas. Encontros secretos. Chaves que abrem portas no escuro. Quero continuar gostando, mais do que qualquer coisa, de um bailarino acidental, que apenas eu sei que dança. Quero também dançar ao som de uma música que toca em outro lugar, que anima um consultório médico onde todos aguardam em silêncio.



Ele apenas acontece enquanto chove. Esse dançador folgazão. E se duvidar, em algum outro plano, é ele quem cai e rega um céu que dorme ao contrário. Necessito desse mundo invertido, de mergulhar nesse mar de homens que abriram os olhos e tomaram para irmão o medo e receberam como recompensa o silêncio, o recolhimento. Ou quem sabe, estrela de cinema.

poema 30

What are we doing?










But
On the other hand

What could we do anyway?

Cap. 68 - O Jogo da Amarelinha

Sim, as coisas estão aí, todas postas. Se há alguma margem de invenção, é na linguagem que mora.

Julito, que proeza, che! Usar a linguagem para superá-la. Jogar a casquinha fora e cutucar direto com o dedo nossos sentidos. E senti tudo o que você disse sem precisar entender nada. E acreditem: eu estava diante de um livro, de um maremoto de letras, que me disse mais ou menos isso:

No mesmo instante em que ele lhe amarrava e anulava o pensamento, ela lhe dava o sexo e ambos caíam em lamentos de suor, em gestos gentis na forma e selvagens na força, em movimentos involuntários exasperantes. De cada vez que procurava tocar pelas bordas os anéis dos seios, ele emaranhava-se num prazer queixoso e tinha de transportar-se de cara para o centro dela, sentido como se, pouco a pouco, suas narinas se aprofundassem explorando, se fossem entrando apertadamente, como se mais do que apenas duas, até ficar estendido como a mandrágora na qual se tivesse deixado cair duas ou três gotas de sangue. E, apesar…
...é um silêncio que são meus olhos que sentem. Porque ouço o som das coisas, notadamente dos carros e das gentes. Mas, por hora, não estou participando e, por isso, tudo tem algo de silencioso, de miragem; de sonho, por assim dizer...

Cap. 8 – O Jogo da Amarelinha

Se nossa tristeza fosse como a dos peixes, Maga, Horário...seria tão mais simples e menos mesquinho. Porque nossa consciência exige muito mais do que um simples reflexo. Desejamos um espelho que possua outro formato de cabelo, outros traços, outros seios, outro sexo. Nossa paz exige um testemunho. Nosso frágil contentamento vem do abraçar vazios de carne e osso. Que bela e comovente tentativa é o ser humano, che.

Você tem razão, Julio: é preciso desalojar conceitos, arrancar muitas das etiquetas que nos pregaram na inteligência, desfazer os nós que prendem nossos sentidos. Criar metáforas, forjar a própria linguagem, alimentar a inteligência com imagens, sons, cheiros. “Pássaros quietos em seu ar redondo”. Deixar um pouco de tentar compreender e avançar entre analogias, tateando, enxergando no escuro. Porque é noite.

poema 29

Você foi como sal
primavera traiçoeira
minha terra semeou

poema 28

Que fiquei para depois
eu percebi só mesmo muito
tarde

Quando a fruta
já caia do seu galho
e a folha
já secava ali no chão

Cap. 74 - O Jogo da Amarelinha

O.K. Mas é preciso partir da premissa de que somente aquele que nunca ler qualquer das notas de Morelli, compreenderá (sentirá?) verdadeiramente seu inconformista. Haveria que coincidir com o esse sujeito sem o saber. Isso, para mim, está claro. Aquele que o lê, infalivelmente ocupa as zonas intermediárias do espírito humano, justamente das quais ele, o inconformista morelliano, desdenha. E é justamente este o pacto (Julio, em outro momento, em outro livro, chamará de biombo colocado entre), a perversa aliança que se estabelece entre Morelli (Cortázar ou qualquer outro) e seus leitores (eu ou vocês): ambos se odeiam, porém se necessitam para que existam. Superando-se todas essas considerações que, se insistidas, me farão parar por aqui mesmo e também dar de ombros (tal qual o inconformista), me pergunto avidamente: para quem ele (eu, eu, eu, eu e eu!) escreve? Sim, porque depois de ler todas as notas, terminei com a impressão de que do inconformista morelliano (do próprio Morelli e, e…

pensamentos desordenados 1

Voltando para casa, sentia-me tão próximo das coisas. Às vezes, me acontece de sentir-me estranhamente próximo de tudo. Olhava para trás e era como se as casas me estivessem perseguindo. Mesmo os prédios mais distantes pareciam ao alcance de meus dedos. Inferno; pensei em tantas coisas enquanto voltava caminhando, que me imaginava enchendo páginas e páginas. Para a sorte do branco, praticamente todos os meus pensamentos já se escaparam, somaram-se à grande nuvem do esquecimento. Talvez o medo que senti de minhas perseguidoras tenha me infundido um temor que apagou tudo.

Comprei um livro hoje e já nas primeiras páginas, uma frase que me fez fechá-lo de medo: “Morte é isto: esquecimento em olhos que olham”. Eu já passei por isso, mas só agora, lendo essas palavras, me dei conta. Se duvidar, é essa espécie de morte que sinto quando ela me olha, mas que se confunde com uma cãibra no estômago. Porque eu sei que ela já não se lembra de mim, embora me chame vez ou outra. Mas se eu mesmo já me…

Cap. 81 - O Jogo da Amarelinha

Por quê? Porque nesses casos tentamos agarrar pelo rabo, ao contrário de tentar meter em nossos livros de história? A verdadeira crença é aquela que ri de si mesma, ou chora, porém que nunca se acredita? Assumir que a única possibilidade está no esbarrão, nos acidentes de percurso, no rabo que se tem provisoriamente entre os dedos, na mulher que se tem momentaneamente ao lado. Pro-cu-rar: palavra por demais enfática que parece pedir uma lanterna para iluminar um caminho (e não possuo lanterna alguma e desconheço qualquer caminho). A única coisa que conheço, e que se diga bem, empiricamente (porque me sinto coçar ou com vontade de urinar ou de fazer amor) sou eu mesmo. Não preciso procurar porque já me tenho em minhas próprias mãos. Mas daí...

poema 27

Não quero saber
quem
ou o que você é

(saber é desejar apropriar-se de mentiras)

Quero você em potência
sua forma
seus gestos e acidentes

Quero você,
Maga.

poema 25

Nossa felicidade não tem preço
- é uma poesia
- é feita de palavras

Essas coisas bobas
que nascem de graça
de dentro do peito
ou debaixo da escada

poema 24

Novelos entalam
a garganta da alma. Falta
me ar ao estômago

Considerações de catraca de metrô

No começo não reparei muito na multidão que passava. Imaginei que seria divertidíssimo se colocassem, diante das catracas, uma daquelas fileiras de cadeiras coladas umas nas outras. Umas pessoas sentadas, comendo pipocas e jogando conversa fora. Dei risada. Depois, minha atenção se voltou para um casal que se despedia antes dela cruzar para ir embora. Pareciam apaixonados; ele a envolvia toda com seus braços. O sorriso havia se congelado na boca dele, esticava-se de orelha a orelha. Mesmo quando se separaram, e ela passou para o meu lado, dirigindo-se à escada rolante que levava à rua, continuaram se olhando. Ela, que subia, agachou-se para que o olhar ainda os unisse. Coisa estranha: assim que ela finalmente desapareceu do nosso raio de visão, imediatamente me virei a ele e pude ver o seu sorriso se desfazendo mais rápido do que um relâmpago. Senti-me triste na mesma hora. Pensei que a felicidade deveria durar mais, resistir um pouco antes de ir embora. Em seguida, notei um par de br…

pensamento de um Karamázov

Um segundo atrás, eu daria de bom grado um prato de comida à velha decrépita que me cruzou enquanto eu jantava na taverna. Senti, até mesmo, uma leve cortina de água se formando por sobre meus olhos; Agora, com o mesmo prazer, enxotaria essas crianças sujas que se amontoam ao meu lado, comandadas por sua mãe desdentada. A menor delas se afastou correndo ao ver-me rangendo os dentes em sua direção. Em nenhum dos dois momentos fui abordado. Concluí placidamente minha refeição. Paguei a conta e tomei o rumo de casa.
...A vida é um erro corrigido pelo tempo...

poema 23

ou Wintersummer

A cada quarteirão

meu coração muda de estação

Inverno
Verão

Puta confusão!

obituário 1

Ele se resfriava facilmente, sentia dores com frequência, sem nunca ter conseguido precisar bem aonde. Lia muitos romances e dizia que se tivesse vivido no começo do século XVIII, teriam diagnosticado que sofria de “doença dos nervos”, recomendando repouso absoluto e perpétuo. Tinha convicção de que morreria de alguma grave doença. Talvez por isso, tenha adotado um tom grave e austero desde muito cedo. Não queria ser pego de surpresa e lhe apavorava mais do que qualquer coisa que dissessem em seu velório algo como “coitado, se até ontem estava tão bem!”. Bem nunca esteve e não queria que a morte simplificasse tudo dessa maneira tão cruel e cômica. No final das contas, lhe aconteceu da maneira que ele certamente julgaria a pior. Ontem, dia 05.02.2010, foi à festa de aniversário de seu melhor amigo. Os testemunhos dizem que bebeu, dançou e se divertiu especialmente. Foi um dos últimos a sair, já trôpego pelas muitas doses de uísque. Não foi muito longe, pois, poucos quilômetros de onde …

poema 22

Faço rimas sem sentido
apenas para agradar os ouvidos
porque me interessam apenas os ruídos
os sussurros
e os gemidos

Há muito tempo não tento entrar em acordo com minha inteligência



Pois é, o Beckett já dizia: não culpem as palavras; elas não são mais vazias do que aquilo que carregam. Mas a gente não aprende e sempre está atrás do tal do “sentido”. “Que será que ele quis dizer?”, pergunta o ávido aprendiz. Eu pergunto outra coisa: será que ele quis dizer algo? Parto da experiência própria de meus rabiscos. Na maioria das vezes, eu REALMENTE não quis, não quero, não quererei dizer nada! As palavras transam entre si, trançam, formam frases gostosas, sonoras, e uma coisa puxa a outra... até que se tem um maldito TEXTO, ou conto, ou romance, etc. Chame do que quiser, tanto faz. Mas acontece que o indivíduo não se satisfaz, não é mesmo? E vem e volta com a história do sentido, do conteúdo. Por que tanta exigência das palavras? Alguém pergunta para o Maestro de uma Sinfônica o que ele está quer…

Suicídio no metrô

A estação era daquelas em que os trens que fazem os sentidos opostos da linha correm paralelamente, de modo que se é possível visualizar a plataforma contrária bem diante de si. Separadas por dois corredores de trilhos, pessoas que se dirigem a galáxias distintas (leste-oeste, Vila Madalena-Paraíso) e que nunca se cruzarão em circunstâncias normais do tipo: Marina e Paulo se conheceram na sala 2-A da escola de inglês em que estudam, quase ao lado da casa de ambos, e de tantos cafés no intervalo, um dia se falaram. Não, para as do metrô há apenas o contato de uma coincidência de horários. Uma coincidência, na maioria das vezes, sem a menor chance de vencer a pressa da garota que notou o olhar do rapaz (que notou o olhar da garota) andando na contramão do túnel que ambos percorriam. Tudo acontece em questão de segundos, ainda que segundos que se colam às horas que vêm depois, porque se não como explicar, três dias depois, lembrar-se dela, enquanto calmamente se mistura o açúcar no café …

poema 21

quero que saiba:

seu nome foi escrito nas areias de uma praia
recém desperta
mas, segundos depois,
apagado pelas primeiras ondas da manhã

(será essa a medida do amor, da vida, de todas as coisas?)