Sapato de couro tamanho 42

Ele foi novo um dia. Do tipo que impressiona e é escolhido especialmente para as vitrines. Seus primeiros pés foram muito importantes. O brilho de seu verniz intimidou muitos homens. Ao cabo de inúmeras conversas, decretou o fim de incontáveis bitucas de cigarro; comprimia com a ponta descrevendo um movimento pendular, de lá para cá, de lá para cá, tendo a parte de trás ligeiramente descolada do solo, de modo a concentrar mais força na frente. O sapato se sentia ambíguo em relação a esse ritual: gostava das atenções que recebia em tais momentos (olhavam-no com um misto de temor e respeito), mas não lhe agradava o desgaste que sofria em sua sola. No entanto, nada podia fazer, por mais que não pudesse deixar de considerar um exagero a demasiada força aplicada no gesto: seria necessário muito menos para extinguir a chama que dava seus últimos suspiros. Os resultados se fizeram sentir e o solado, outrora perfeitamente uniforme, tornou-se completamente chamuscado pelas intempéries das calçadas. Talvez por isso, já fazia muito que os pés não o procuravam, até que, um dia, foi pego pelas mãos da mulher que costumava visitá-lo apenas para lustrá-lo, mas que daquela vez, com um ódio incomum, meteu-o violentamente em uma sacola velha, retirando-o do confortável e respeitável “box” privado que ocupava no “closet”, entregando-o a um homem que esperava no lado de fora da casa. Nunca saia assim, sem os pés, e ficou preocupado. Além do mais, o homem era de um aspecto deplorável, sujo, mal vestido. Imediatamente foi levado aos novos pés. Se é que podia chamar-lhes novos porque tinham um péssimo cheiro e unhas que quase lhe perfuraram o couro. A raiva foi tanta que o sapato os apertou com toda a força. O homem não se importou. Pelo contrário, olhava muitas vezes para o sapato com afeto e, ao final dos dias, retirava-o delicadamente e o acariciava demoradamente. Dormia com ele ao lado da cabeça a, às vezes, nem mesmo o tirava dos pés. Com o tempo, o sapato se afeiçoou pelo homem. Caminhavam diariamente e por toda a cidade. Gostou tanto – antes era sempre o mesmo caminho. Conheceu muitos lugares e já não se importava com desgaste e coisas assim. Conta-se que foram os dias mais felizes de sua vida e que andou contente até o momento em que descolou a última prega.

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