Rouge

Ela está se maquiando. Sempre pede que me afaste nessas horas e eu obedeço como uma criança triste. Às vezes, a porta fica um pouco aberta e eu consigo espiar. Ela nunca percebe, tão concentrada em admirar a si mesma. Começa pelos olhos e, após vasculhar com decisão um estojo repleto de materiais de beleza, encontra o que buscava e, com gestos rápidos, transforma os cílios em uma cortina negra, que protege e realça duas safiras. Vendo-a ainda nua, julgo que ela não precisaria dessas coisas, mas não digo nada. Suas formas são todas bem delineadas, ela tem o tamanho correto para uma mulher e sua tonalidade é extremamente branca; acabo sempre pensando em uma escultura e terminei por apelidar-lhe de branquinha.
A bochecha já não é mais só pele, ligeiramente avermelhada pelo rouge que ela espalhou com a mão, que mais parecia um espanador consciente. Antes de vestir as roupas íntimas (enquanto as sustenta delicadamente entre os dedos; o braço a meia altura), olha-se demorada e languidamente. Percorre toda a extensão do reflexo no espelho.
Restam os cabelos e ela começa a dedilhá-los com um grande cuidado, deixando a cabeça tombar levemente, acompanhado o sentido que a mão determina. Quando ela termina e me vê na cama, sentado e esperando, pergunta com o corpo todo se eu a acho bonita e, como sempre, digo simplesmente que a amo.
Depois, sairemos para caminhar e jogar conversa fora. Ela dará passos calculados, e se esforçará por corresponder ao teatro que encena com os outros homens que a olham. Então, talvez para vingar-se do que ela chama minha passividade (amor, amor, querida, quando você irá compreender?), perguntará cinicamente por que será que tantas pessoas nos olham. Eu responderei não saber e ela sorrirá o sorriso mais bonito do mundo.

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